domingo, maio 08, 2016

Ciao!!!





Confesso procês: quase não li este livro.
Não porque ele seja ruim, pelo contrário. A Elis Miranda já contou ao Literatura de Mulherzinha o quanto ele a emocionou.
Só que não havia uma leitura mais perfeita para o dia das Mães, então, cá está a minha resenha dele.

Quarto – Emma Donoghue – Verus
(Room - 2010)
Personagens: Jack e a Mãe; o Quarto

O Quarto é o mundo de Jack e a Mãe, onde dormem, comem, rezam, tomam banho, brincam, leem. Onde estão há anos, sem contato com “Lá Fora”. Jack não percebe plenamente, mas eles estao trancados ali e dependem do Velho Nick para comer e ter as condições de viver. No entanto, pela segurança deles, as coisas precisam mudar e Jack terá que ser corajoso para ajudar a Mãe a ser bem sucedida a escapar do cativeiro, mesmo sem a certeza de que os dois estão prontos para superar os traumas e serem livres.

Comentários:

- Quarto é ficção, mas inspirado em fatos muito reais: nestes casos onde homens sequestram jovens e as mantém em cativeiro por anos. Basta uma pesquisa rápida no Google e vão encontrar casos chocantes descobertos nos últimos anos. E eu ando preferindo me distanciar da realidade ao ler: por isso também não vi o filme que rendeu o Oscar de Melhor Atriz à Bree Larson e deveria ter indicado o fofo Jacob Tremblay pelo papel dificílimo que é ser o protagonista desta história.

- Eu sabia o quanto o livro era forte. E a maior força dele está em ter um narrador de cinco anos de idade – completados logo no primeiro capítulo. Jack é um menino que nunca saiu do Quarto, desde que nasceu. O mundo dele se resume ao universo confinado naquele espaço restrito. Um universo construído inteiramente pela jovem de 26 anos que é a Mãe dele. Em uma situação totalmente atípica, ela conseguiu criar um ambiente razoavelmente saudável para o desenvolvimento de um menino inteligente, esperto, observador, que conta a história de uma jovem sequestrada que teve um filho no cativeiro e que sabia que, para o bem deles, teria que descobrir uma forma de escapar de um quarto feito justamente para impedir qualquer fuga.

- Muito do poder do livro está no que Jack narra sem compreender plenamente. Jack não conheceu outra vida que não seja aquela e ainda está pequeno demais para entender que é uma situação de violência sexual, física e psicológica, ameaça e restrição de liberdade. Mas a Mãe – e quem lê – sabe que existe um mundo muito mais amplo que o Quarto: conhecimentos, relacionamentos, músicas, cheiros, experiências, lugares, família. Tudo que foi tirado abruptamente dela, quando foi sequestrada. Tudo que ela, por ainda estar confinada e dependendo do captor, não pode dar ao filho como qualquer mãe gostaria.

- O problema é que desejar a liberdade pode não trazer a paz sonhada durante o período de sequestro e confinamento. Mãe e Jack se tornam estranhos/estrangeiros na sociedade. Ela, por ter passado sete anos afastada contra a vontade, forçada a uma transição de jovem para Mãe (em nenhum momento sabemos o nome dela, apenas a conhecemos pela sua identidade de Mãe, que é como ela é vista pelo filho, narrador da história) em um ambiente nada saudável, os traumas que precisará enfrentar mais cedo ou mais tarde, os laços familiares estremecidos, o olhar – e o julgamento (sim, ninguém tem nada que emitir juízo de valores sobre o sofrimento enfrentado por ela, principalmente, mas vai dizer isso nessa sociedade acostumada a julgar tudo e todos do alto do poleiro da arrogância de se achar o último bastião incólume da sociedade) – dos outros e a necessidade de se submeter para proteger o filho e de tomar a decisão de arriscar uma fuga pelo mesmo motivo: o medo de que o captor coloque Jack em risco. E o menino porque o “Lá Fora” era algo abstrato, que quando se tornou concreto era assustador porque ele não tinha referências anteriores para lidar e elaborar significados que expliquem a dinâmica além do Quarto.

- É pesado, é tenso, é melancólico, é doído, é frustrante. Eu disse que era forte. Disse que era ficção e, ao mesmo tempo, real. É um exemplo do que uma Mãe é capaz de fazer por um filho, do quanto é capaz de aguentar e de sofrer por ele e do quanto uma criança foi o motivo que a manteve de pé em uma situação totalmente adversa. Fala sobre dor. Fala sobre perda. Fala sobre medo. Fala sobre afeto. Fala sobre trauma. E acima de tudo, fala sobre amor.


Bacci!!!


Beta
Reações:

2 comentários :

  1. Olá, Beta!

    Amei a resenha! Muito!!!

    Há anos que quero ler este livro. E há anos o evito. Não sei se um dia terei coragem suficiente para lê-lo, sobretudo por envolver criança. Não suporto essas histórias quando há crianças no meio. É angustiante demais. Já é desesperador quando as vítimas são mulheres, ou quaisquer outros seres humanos, mas quando se trata de crianças... tudo é pior. E por isso ainda não sei se um dia serei capaz de ler este livro. :(

    "Quarto é ficção, mas inspirado em fatos muito reais: nestes casos onde homens sequestram jovens e as mantém em cativeiro por anos. Basta uma pesquisa rápida no Google e vão encontrar casos chocantes descobertos nos últimos anos."

    Pois é, Beta. Estes livros costumam ser bem reais. Não apenas por mostrarem situações que poderiam se passar na vida real. Mas sobretudo porque de fato mostram situações reais. Pesadelos que se passam na realidade. Sempre que leio livros assim fico pensando em quantas pessoas estão passando por momentos assim neste exato instante. Quantas estão aguardando um socorro que muitas vezes não chega. E é horrível pensar nisso.

    "sim, ninguém tem nada que emitir juízo de valores sobre o sofrimento enfrentado por ela, principalmente, mas vai dizer isso nessa sociedade acostumada a julgar tudo e todos do alto do poleiro da arrogância de se achar o último bastião incólume da sociedade."

    Vivemos todos numa sociedade muito hipócrita, recheada de julgamentos e preconceitos. E são muitas as pessoas que amam falar dos outros, de como fulano de tal deveria ter agido, que tal pessoa não deve ter sofrido tanto como diz por causa disso e daquilo. Mas parar para se colocar na situação da pessoa elas não fazem. Se todos fizéssemos o exercício de nos colocar no lugar do outro antes de dizer ou agir de determinada maneira, o mundo seria bem melhor.

    Se desejar ler outros livros do gênero (mas que não têm crianças como personagens principais e nem secundários) eu recomendo: Identidade Roubada - Chevy Stevens (a mocinha é sequestrada por um psicopata e mantida em cativeiro por um ano) e No Escuro - Elizabeth Haynes (neste caso, a mocinha sofre violência doméstica e escapa da morte por muito pouco, passando a sofrer de transtorno obsessivo-compulsivo e estresse pós-traumático, além de ver-se novamente em perigo quando o homem que quase a matou pode ser colocado em liberdade).

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  2. Uma história que eu conheci através de sua narrativa neste blogg, mas que eu não pretendo assistir ou ler, principalmente por saber que foi uma ficção inspirada em fatos reais. Eu vim a conhecer um desses fatos reais em um filme que minha tia escolheu, entrando de gaiata naquela escolha. Eu tenho uma mistura de sentimentos ruins contra um canalha que fez tudo o que fez contra três garotas, então ...

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