terça-feira, abril 19, 2016

Ciao!!!






Talvez as pessoas que se impressionam facilmente tenham sérios problemas com este texto. Na verdade, o conto se revela muito mais profundo que as primeiras impressões.

O papel de parede amarelo – Charlotte Perkins Gilman – José Olympio
(The Yellow Wallpaper - 1892)

Uma mulher fragilizada após ser diagnosticada com uma doença que não é citada abertamente é levada pelo marido para uma fazenda histórica no campo, para que se recuperasse.  O conto é todo narrado pelo ponto de vista da paciente, a forma como via o mundo, como percebia o tratamento que estava recebendo, revelando pistas aqui e ali dos sentimentos confusos ou não dela neste momento.

Ela é instalada em um quarto, antigamente usado pelas crianças, com um papel de parede amarelo, e tem todos os movimentos e atividades controladas pelo marido, que é médico, “um homem das ciências” e decidiu em prol do melhor para ela.

No entanto, conforme o relato avança, percebemos que a mulher não se recupera, está cada vez mais afundada na própria mente que encontrou um desafio no padrão do papel de parede amarelo. Ela enxerga uma mulher presa atrás do papel, mas nunca consegue alcançá-la para libertá-la. A esposa tenta impedir que outros descubram este segredo até que seja tarde demais e o que o papel de parede esconde seja revelado: algo que nenhuma ciência será capaz de controlar e “curar”.

O livro, durante muito tempo, foi um relato da forma como a mulher era tratada pela sociedade quando não se encaixava no parâmetro reinante de ser a esposa e mãe submissa, de temperamento dócil. Quando seus nervos não aguentavam, quando tentava sonhar com algo diferente do padrão. Não há explicação clara do que desencadeia o processo de desequilíbrio da personagem: depressão, depressão pós-parto, algo que sempre existiu, mas só apareceu agora? O que fica claro é que a mulher, agora “paciente”, se torna um objeto a ser isolado do convívio social para que possa se recuperar. Ela não tem direito a voz – todas as tentativas dela de expor seus sentimentos ou explicar o que sentia são silenciadas pelo marido médico, o “soberano”, o “homem da ciência”, o “ser social que tudo sabe”. É confiada em um quarto infantil – quando havia outras opções no térreo – e vigiada por uma empregada para ficar realmente distante da dinâmica da casa. Cria uma personagem que aparenta estar em recuperação quando, na verdade, se deteriora cada vez mais.

O resultado disso não poderia ser nada bom, né? A autora descreve todo o processo de sufocamento da personagem e de como isso vai explodir depois, causando um colapso na família. Durante anos, o conto foi visto como um texto voltado para o terror (porque é realmente assustador o que ocorre com a personagem, ainda mais porque fica claro para quem lê que não há esperança). No entanto, após analisar a vida da autora, o conto ganhou uma dimensão mais ampla, relacionado à forma como as mulheres eram vistas pela sociedade, o papel social e sexual esperado dela, algo que nunca poderia transcender – as que tentavam se tornavam párias.

A edição da José Olympio traz apresentação escrita por Márcia Tiburi e posfácio analítico e que esclarece o viés feminista do texto assinado por Elaine R. Hedges, pertencente à edição publicada em 1973. É uma grande ajuda para quem não conhece o texto (como é meu caso) entender todas as suas sutilezas de significados e a sua importância para uma discussão ainda relevante e atual.


Bacci!!!

Beta
Reações:

Um comentário :

  1. Ah, senhor, que conto horroroso !!! Eu tenho certeza de que nunca iria ler esse romance porque eu vivenciei um sentimento muito ruim ao ler sua resenha sobre ele, que fez com que eu lembrasse de um filme e de um livro, alias de mais de um filme e de mais de um livro, com tematica semelhante ao que foi descrito como tratamento dado para mulheres que nao estavam seguindo ao padrao de mulher ideal, obediente, submissa antigamente - ou mesmo atualmente ! Muito enraivecedor ver que era preferivel destruir uma mulher por ela nao ser como queriam que fosse a ter uma vida de riqueza ao seu lado !!!

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