sábado, março 05, 2016

Ciao!!!





Aquele momento em que você tem um compromisso, sabe que vai ter que esperar e pega o primeiro livro da pilha. Sim, foi assim que eu li este livro em menos de 2h.
O que eu achei? Hum... Antes preciso dar um aviso importante.

O Literatura de Mulherzinha adverte: texto repleto de sede de vingança de blogueira escorpiana irada e spoilers. Não necessariamente nesta ordem. Leia ciente disso!

Agora sim, vamos ao que interessa.

A Bela e a Fera – Penny Jordan – Sabrina 550
(Special Treatment – 1988 – Mills & Boon)
Personagens: Susannah Hargreaves e Elias Maine

Por causa de um mal entendido, Susannah estava em péssima situação com o novo chefe da revista Tomorrow, Elias Maine. Ele a considerava uma aventureira, inescrupulosa, incompetente, que só havia se mantido na posição que tinha na revista às custas de um caso com o chefe anterior. Só que agora a situação havia mudado e ele estava lá para colocá-la em seu devido lugar. Só há um problema neste plano do autointitulado justiceiro protetor do casamento alheio: e se ele estivesse totalmente errado?

Comentários:

- Assédio moral. Assédio sexual. Processo. Chama o advogado e entra com a ação. É bom ler estes livros agora porque a gente já sabe exatamente como agir diante de uma criatura como Elias Maine. O típico “herói” (aham) onisciente e onipotente, que (pensa que) tudo sabe e que tudo pode. Após um mal-entendido (ele flagrou uma cena que não significava nada além do que era: uma pessoa chorando e sendo consolada por outra), ele deduziu que Susannah, a jornalista bonita da revista, era a causa do problema para o casamento de uma amiga que considera como irmã. Não bastasse maltratá-la na festa (o que já renderia um “se manca criatura, quem você pensa que é?”), o homem assume o cargo de chefia na revista e já chega possuído pelo Jiraya vingador: expõe o que pensa saber sobre ela na reunião da empresa: 
- O trabalho é prioritário para quem quiser fazer parte da redação desta revista, srta. Hargreaves. E, nesse caso, sugiro que troque de emprego ou de amante! (p.11)
(Testemunhas, eu vejo várias testemunhas para o processo de assédio moral. Pena que isso foi em 1988 ou atualmente haveria a chance até de ter vídeo ou áudio. E o funcionário da Gestão de Pessoas tendo um ataque cardíaco diante do clima na empresa com um chefe desses).

- Ninguém entendeu porque a garota tinha virado um bode expiatório do chefe que acabou de chegar. Mas calma, é claro que isso era apenas o começo do calvário da mocinha e do exibicionismo do chefe justiceiro.
- Estou tendo certa dificuldade em avaliar seu trabalho, srta. Hargreaves. – Dentre os papeis sobre a mesa, ele apanhou uma pasta – Aqui estão todos os artigos que escreveu para a revista. Muito bons, bem escritos e racionais, revelando compaixão e solidariedade para com os menos favorecidos. Não esperava isso de uma mulher da sua la..., digo, de seu gênero. Resumindo, srta. Hargreaves, sou de opinião que seus artigos poderiam ter sido escrito por outra pessoa. (p.35)
(pausa para acordar meu Jedi interior antes que baixe um Sith pra caçar esse homem)

- Elias questiona o profissionalismo, mas o antiprofissional é ele, em nenhum momento, buscou informações das demais pessoas da equipe sobre a mulher que ele já tinha julgado e condenado. Agora encontrou a forma de executar a sentença: ao tirá-la das reportagens e a transformá-la em assistente pessoal, com direito a mesa na mesma sala e horários abusivos, ele deixa bem claro o objetivo de controlá-la de perto e evitar que ela encontrasse o tal amante. AHAM. Quando ela conversa com outros colegas de trabalho, ele ainda tem a audácia de criticá-la, ameaçando mandá-la embora por “mau comportamento” e não perde a chance de humilhá-la na frente dos outros. (ah, nunca faltariam testemunhas no processo...). E quando ELA consegue uma entrevista exclusiva com um escritor recluso, ele: a) dá um jeito de criticar b) questiona se o contato dela para conseguir a entrevista era um homem c) pede o telefone porque quer avisar que ELE fará a entrevista.

(E como tudo está ruim pode piorar, no meio desse fuzuê, ainda aparece um “AJI” – yep, escrito assim. Minha Santa Terezinha, me segura porque a paciência está acabando!)

Só que como o escritor não aceita a entrevista sem Susannah, ele é obrigado a levá-la na viagem até Yorkshire. Aí cansada de ser vítima do julgamento implacável dele, Susannah afirma que terminou o caso com o amante.

* Pausa para uma explicação: no primeiro encontro dos dois, ele deduziu que ela tinha um amante e ela não desmentiu. A consciência dela estava pesada porque ela realmente teve um envolvimento com um homem casado, mas descobriu antes de dormir com o cara. Mas não era a mesma pessoa que o vingador achava que deveria proteger de uma “mulher da laia dela”. Até parece que homens casados que arrumam amantes são seres indefesos e frágeis que só caem em tentação por culpa exclusivamente da mulher. Anjinhos corrompidos que precisam ser salvos por homens fortes e valorosos. Ah, acho que estou precisando de um suco de maracujá porque não sou obrigada a aturar isso...*
  
- Gente, o homem vira da água pro vinho/vinagre. Deixa de ser o Jiraya da Vingança e vira o Amado Amante. Porque então ele finalmente poderia levar adiante a atração que sentia por ela. Socorro. Muito socorro. Delegacia de Mulheres já. E ela um tanto inocente quanto a relacionamentos e confusa até dizer chega não consegue resistir à experiência e virilidade dele, se deixa levar e se apaixona. 

- Mas o retorno do “suposto amante casado” faz o caldeirão entornar de vez. Indignado por ter quase caído na “armadilha” dela, Elias a agride verbalmente (incluindo perguntar quando quer para deixar o “tal amante” porque ele paga) e parte para a forma de intimidação e imposição que muitos “heróis” dos livros e homens na vida real usam. 
“Será que ele vai gostar de ver seu corpo marcado pelos carinhos de outro?”
“E a próxima vez que estiver com seu amante, é de mim que vai se lembrar!”
Exatamente isso que você pensou. Faz o que quer – e banca o condescendente por não consumar o ato, porque a fez reagir ao fazer sexo oral nela – dá a ela o ultimato de terminar o caso com o tal amante e vai embora. Não conheço as leis na Inglaterra, mas estupro é estupro em qualquer lugar. Quando alguém se impõe sobre outro, sem que seja consensual, não tem justificativa.

- Em estado de choque, Susannah foge. Faz as malas e deixa Londres. Encontra apoio e um novo emprego no interior. Manda uma carta de demissão para a revista e não informa a ninguém o paradeiro. Até que o ex-chefe e amigo dela - que é o “tal marido infiel que precisava ser salvo pivô involuntário de toda a sanha de justiça do chefe justiceiro” - consegue localizá-la e conta o que ocorreu enquanto ninguém sabia onde ela estava. O óbvio: Elias descobriu a verdade.

A verdade era que ele estava errado em tudo. T-U-D-O. DÃÃÃÃÃ!!! 

O problema no casamento da amiga era que o marido trabalhava demais e ela queria que a família morasse no campo. Não era um relacionamento extraconjugal. Um bom corretor de imóveis teria resolvido o problema já que ela havia convencido o marido a deixar o emprego – o que levou Elias a herdar o cargo dele. E o amigo resolve bancar o “advogado do diabo” (expressão que serve aqui como uma luva para o protagonista dos infernos) e explicar a Susannah que há “circunstâncias atenuantes” para compreender as atitudes deles.

(Pausa para vocês imaginarem todos os xingamentos que proferi em Português, Inglês, Italiano, Espanhol e até em Asgardiano e Vulcano, se eu soubesse ambos os idiomas ao ler esta frase)

O comportamento do Elias deve-se a um trauma familiar. O pai dele – conquistador barato – largou a família por causa de uma funcionária quando ele era moleque. A mãe não aguentou de desgosto e adoeceu física e mentalmente. Teve depressão. Chegou a tentar se matar – e foi o filho quem a encontrou e socorreu. 
- Você percebeu o que estou tentando lhe dizer, não é, Susannah? Apesar de ter sido extremamente injusto com você, Elias agiu como foi “programado”. Passou a vida inteira ouvindo a mãe atacar a mulher que lhe roubara o marido. (p. 104)
PODE PARAR.
Vamos colocar alguns “pingos nos Is” aqui.
a) casamentos desfeitos porque um dos cônjuges desistiu dos votos que fez e age de forma desonesta ocorrem todos os dias, infelizmente.
b) Traumatizou? Vai para terapia. Desabafa toda a dor que consome o coração. Vai doer mais. Mas há chance de se tornar um ser humano melhor. Não tem o direito de sair julgando, condenando e executando sentenças a torto e direito por aí.
c) Sobre a mãe de Elias, não me atrevo a julgar a dor que ela sofreu. Há pessoas que não resistem tanto assim. Talvez se ela tivesse pedido ajuda a alguma pessoa mais próxima, o estrago na vida dela e do filho não teria sido tão grande. Mas são suposições.
d) O pai de Elias era descrito como um conquistador barato e a culpa é da “mulher que roubou o marido”. Gente, quando um não quer, dois não brigam. Os dois são igualmente culpados.
e) Em nenhum momento, o paladino da felicidade conjugal alheia confrontou o suposto marido infiel. Descontou toda a sanha dele na amante, ainda mais porque ele a desejava. Então ela deveria ser punida em dobro.
f) Sim, Susannah quase teve um relacionamento com um homem casado. Mas descobriu a tempo. E sofreu, era um peso na consciência dela. E onde está escrito que Elias deve julgá-la e condená-la por isso. Vida dela. Escolhas dela. Sofrimento dela. 
g) Baseado em suposições alimentadas ao ponto da obesidade mórbida pelas neuras e traumas DELE, Elias a humilhou na frente dos colegas, a assediou moralmente sempre que encontrou uma brecha, a explorou no trabalho por achar que “por ser protegida do amante na gestão anterior, ela tinha que saber o que era trabalhar de verdade” e por querer restringir as horas livres dela para que ela não encontrasse o amante.
g) E quando tudo não correu como ele queria, ele se impôs sexualmente sobre ela.

- Tô aguardando algo levemente parecido com ATENUANTE que justifique o óbvio e patético pedido de perdão que virá a seguir, com todo aquele tatibitate: “eu não sabia...”, “eu não devia...”, “eu fui injusto...”. Ele merecia era uma denúncia formal na polícia, pra ir à julgamento por todos os crimes já citados e todos os outros onde puder ser enquadrado.

Mas... estamos em um livro onde o final feliz é necessário. A nossa heroína altruísta precisa ser convencida – pelo poder do amor – a oferecer a redenção ao “herói” torturado pelo peso do passado e pelo gosto amargo de todas as injustiças que fez com ela. Por isso, começam a pipocar os conselhos de que ela não deveria ceder ao orgulho, que ela deveria conversar com ele e contar que realmente quase teve um envolvimento com um homem casado.

Outra pausa: e na hora que ela saiu com um “Por que não conta esse fato a Elias? Tenho certeza de que ele conviverá melhor com seu sentimento de culpa...” para o amigo, mesmo sendo irônica, me senti compelida a invocar o meu “Benedict Cumberbatch versão Khan virado no capeta” interior e partir pra porrada. Ele não tem que conviver melhor com o sentimento de culpa. Ele tem que sofrer. Sofrer muito. Sofrer como se não houvesse amanhã. (prontinho, modo escorpiana vingativa sanguinolenta ativo e querendo justiça)

Até que Susannah é forçada a confrontá-lo porque ele descobre onde ela está e vai até lá. Rola empatia. Ela o vê desesperado e sofrendo. Ele vem com voz suave, chamando de querida, suplicando para ser ouvido, para dizer o quanto está arrependido, que quer ser perdoado, que reconhece que errou, que descontou nela traumas e frustrações que eram deles, que foi um bruto, um animal, que não se perdoa pelo que vez, que vai conviver com isso o resto da vida. E o óbvio: “- Mas, eu... eu te amo!”.

Não é tão fácil como ele pensa, mas é sempre rápido como a gente já sabe que será. Ela pede que ele fique, ele percebe que ela ainda tem medo dele e banca o respeitador. Ela percebe que só está com medo porque é inexperiente e resolve tomar a iniciativa. Eles se amam. Ele promete que irá se redimir por tudo que fez errado e o livro termina com os dois juntos rumando ao “e foram felizes para sempre”.

E no episódio de hoje mostramos que não somos obrigadas. Ninguém é obrigada a ser humilhada, abusada e exposta como Elias fez com Susannah. Ninguém é obrigado a ter os sentimentos diminuídos, nem ficar sob constante patrulhamento. Ninguém é obrigado a ser o saco de pancada de outra pessoa. Todos merecem respeito.

Prefiro meu final alternativo: Elias foi denunciado e preso por todos os crimes que cometeu. Talvez depois disso tenha se tornado uma pessoa melhor. Susannah buscou uma terapia para lidar e se libertar dos traumas e depois conheceu alguém que a fez ser feliz em um relacionamento saudável.


Bacci!!!

Beta

ps.: E como muitas vezes a ficção consegue ser menos escabrosa que a realidade, deixo os seguintes links para quem quiser se informar sobre assédio moral no trabalho, assédio sexual no trabalho, uma cartilha sobre o assunto e a lei dos crimes contra a dignidade sexual.
Reações:

6 comentários :

  1. Beta, seu texto está ótimo. Confesso que ri dos comentários, não sobre assédio obviamente, mas dos Benedito, por exemplo...
    Quando leio esses livros eu me pergunto se as autoras tomaram algo ou se isso é somente fruto do meio e época em que viviam. Onde mulher era sempre um adereço.
    E pensar que não faz muito tempo, nem alma tínhamos...
    Bom, eu leio com humor, como se estivesse vendo discovery channel, national geographic, e fosse uma espécie a parte, pq é muito sem noção. Não me envolvo para não querer assassinar uma autora e por conta dessa visão "reino animal diferente" que encaro, acabo por achar graça.

    Bjsss

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  2. Olá Beta, não consigo mais ler esses livros, pois começo a ficar com ódio dos "mocinhos". Tem um livro que é dos anos 70, que o mocinho resolveu maltratar a mocinha só por que ela lembrava uma outra pessoa. Ainda bem que as autoras melhoraram e evoluíram.

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  3. Oi Beta!
    Já imagino no futuro dese casamento ele desconfiado, ciumento, batendo nela!
    Bju!

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  4. Beta seu blog é mara!há livros pores dela, "o preço de amar" faz esse daí parecer Cinderela.

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  5. Li Penny Jordan e como já li um livro da autora que na época até curti resolvi vir ver a resenha e que horror! Como um ser assim pode ser considerado "heroi"/mocinho da situação, não faz sentido o que algumas autoras tinham na cabeça quando escreviam!
    Todas preferimos seu final alternativo!

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  6. Ah, eu sinto peninha de ver esse romance com esse título em brasileiro ! Fera não era essa monstruosidade troglodita em seu conto de fadas original, muitíssimo pelo contrário ! Pode-se imaginar muito bem, e até aumentar sua dose, carregando mais em suas cores, toda história descrita nessa postagem ao ler seu título original (Special Treatment): ele não sugeriu um tratamento abusivo, usando de ironia ? RÁ !

    Eu sinto-me inconformada com essa espécie de romance porque não seria possível que essa mulher não defendesse-se ou encontrasse um defensor entre seus colegas pelo decorrer desse romance porque ela não tinha ego nulo. Muito tenso pra mim ! Mas eu preferiria que ela tivesse um terço desse romance para refestelar-se e vingar-se, ao invés de um último capítulo, se tanto. Defender-se faz tão bem ao espírito !!!

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