domingo, fevereiro 28, 2016

Ciao!!!




É provavelmente um dos textos mais difíceis que escrevo sobre um livro. Porque, simplesmente, é um daqueles casos que, quando você sabe que é “inspirado por fatos reais”, fica surpreso em comprovar que a vida pode superar qualquer ficção facilmente.

Escrevi este texto originalmente para o Livrólogos e a Rosana liberou para encerrar a série de publicações sobre os indicados ao Oscar 2016. A adaptação do livro "A garota dinamarquesa" concorre em quatro categorias nesta noite: figurino; design de produção; Alicia Vikander (Greta) melhor atriz coadjuvante e Eddie Redmayne (Einar/Lili) melhor ator. Pelos resultados até agora na temporada de premiação, leva com Alicia Vikander. E o Eddie Redmayne não leva porque tem um Leonardo DiCaprio no meio do caminho.

Washington Post
A garota dinamarquesa – David Ebershoff – Fabrica 231
(The Danish Girl – 2000 - Viking)
Personagens: Einar Wegener/Lili Elbe e Greta Wegener

Na década de 1920, um favor – assumir o lugar da modelo ausente – que deveria ficar em segredo entre marido e mulher se torna o catalisador de algo que o pintor Einar desconhecia: o fato de que havia uma mulher presa no corpo dele. Uma jovem que foi batizada de Lili, que se tornaria a grande musa inspiradora das obras de Greta, a esposa que esteve ao lado do marido nesta jornada – nada fácil – de descobertas. A partir disso, vários questionamentos colocam em xeque o conceito de identidade, de casamento, de amor e prioridades na vida deles.

Comentários:

- É incrível como várias histórias surpreendentes aconteceram de verdade e a gente nem sonha. É incrível imaginar que uma situação que atualmente desperta tanto debate, tantas (in)certezas foi o motor da transformação de uma pessoa em quem ela sentia que nasceu para ser. Viveu os primeiros 35 anos de sua vida como Einar, houve um momento em que não mais se reconhecia assim. Em que soube que sempre tinha sido Lili. Agora, se atualmente transformar um corpo para atender à verdadeira expressão de sua alma exige cirurgias específicas e apoio psicológico, imagina este mesmo procedimento na década de 1930!

Montagem Editora Rocco
- Se não fosse a curiosidade de David Ebershoff, que o levou a pesquisar e a escrever uma história de ficção inspirada em fatos reais vividos por um casal dinamarquês há quase 100 anos, não teríamos o livro de estreia dele, nem o filme. E as pessoas continuariam achando que o mundo começa a partir do momento em que existem neles – esquecendo que outros viveram antes e deixaram um legado a ser respeitado.

- Sim, fiquei curiosa a partir do trailer do filme A Garota Dinamarquesa, porque quando vi o Eddie Redmayne “mais menina” que eu (que estou longe de ter o perfil delicado associado ao estereótipo feminino) me peguei pensando: “gente, que história é essa. Quem foi essa pessoa?”. Sim, quando soube que havia um livro, sabia que teria que ler. Não, não tenho nenhuma experiência com uma situação tão complexa sobre o direito de afirmação de uma identidade. Não, não sou especialista em nada disso. Sim, o livro deixa claro: é confuso demais para quem passa por isso na própria pele.

- A primeira coisa que me ganhou no livro: a sensibilidade do autor. Em nenhum momento do livro, David Ebershoff julga Lili ou Greta. De tanto que leu e pesquisou sobre o assunto, inclusive nos relatos deixados pela própria Lili em reportagens e no diário publicado a partir de depoimentos dela, ele optou por uma abordagem ficcional sobre como pode ter ocorrido (ou não) a jornada de transformação de Lili (leia o posfácio escrito pelo autor para a reedição que chegou às livrarias neste ano, no embalo do filme). E as reações das pessoas a isso: o médico que acha que é esquizofrenia, outro que quer fazer uma lobotomia, a dificuldade em colocar em palavras o que está ocorrendo, as dúvidas, as incertezas. E como Lili e Einar conviviam no mesmo corpo a partir do momento que ela ganhou voz e desejos mais intensos (inclusive o autor explica que percebeu nos escritos da própria Lili como ela explicava a convivência com Einar) e o desgaste psicológico e físico que enfrentou até a decisão sobre quem era de verdade.

Pintura de Lili feita por Gerda

- O mais relevante é que, se não era fácil ser Lili, era igualmente difícil ser Greta. A personificação literária da verdadeira esposa que se chamava Gerda, se revela uma mulher muito à frente do próprio tempo. Imagine você perceber que seu marido na verdade é uma mulher, mesmo que biologicamente ele seja um homem? Imagina você notar a beleza da verdadeira personalidade dele e transformar em sua musa – porque são os retratos de Lili que dão a Greta a popularidade como artista; já que Einar era um paisagista reconhecido. 

- A maioria das mulheres surtaria, não entenderia, teria uma crise “onde foi que errei” – e são reações legítimas e até previsíveis diante de uma situação que escapa ao campo de conhecimento e conceitos comuns.  A maioria dos parâmetros usados como alicerces morais pelas pessoas não incluem um “como reagir” a este tipo de situação e, em geral, condenam. 

- Talvez pela “espinha do oeste” e por olhar além do que vê, Greta conseguiu enxergar Lili antes de Einar estar pronto para admiti-la. Conseguiu ver a beleza e a fragilidade deste ser, respeitou e apoiou o marido em suas decisões e piores momentos. Tornou o segredo de Lili também o seu segredo – e conseguia ser a leoa protetora enquanto Lili se firmava. Não foi fácil, ela também sofreu, ela se desgastou, ela se preocupou, mas ficou ao lado de Lili até o máximo que pode. Até quando deixou de pertencer à esta história.

- Se você alguma vez na vida se olhou no espelho e questionou algo que o desagradava – ou mesmo condicionou a sua sensação de felicidade ao fim do que considerava um defeito (como fiquei anos da minha vida fazendo com meus dentes tortos e só encontrei a paz depois de anos de um tratamento ortodôntico doído e desgastante), então você tem alguma chance de saber um pouquinho como Lili se sentiu em busca de sua verdadeira identidade. E pode sentir uma empatia e acompanhar sem preconceitos e julgamentos até onde ela foi capaz de ir para poder se tornar fisicamente a mulher que sempre foi. É bonito, é sensível, é intenso, é confuso, é instigante, é emocionante. É ficção. E foi real para Lili. E é real para muitas pessoas por aí neste mundo, vasto mundo.

Desde então ela inspirou muitos de nós, tanto trans quanto cis, a sermos nós mesmos. Lili sabia que uma vida falsa simplesmente não é vida. Quem somos nós? Quem queremos nos tornar? Como nos percebemos? Como queremos ser percebidos? Estas questões de identidade frequentemente estão no núcleo central de nossos conflitos internos. Quem consegue resolvê-las fica mais perto de estar livre. Quase um século atrás, Lili Elbe superou tais questões sobre si mesma. Ela posou para um retrato no ateliê de uma artista e disse para o mundo: – Esta sou eu. (David Ebershoff)


Trailer do filme



Bacci!!!

Beta 
Reações:

Um comentário :

  1. Que armadilha de circunstâncias !!! Um drama conjugal e pessoal muitíssimo complicado começando por conta de um favor !!! Eu posso imaginar muito bem o que foi para ela e o que foi para ele ter de vivenciar aos pouquinhos o que não poderia ser ignorado e negado por mais tempo e que iria mudar suas vidas (e seu casamento e seu pensamento) para sempre mesmo !!! Eu espero que eles tenham permanecido amigos ...

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