domingo, janeiro 17, 2016

Ciao!!!


Neste lançamento da Sextante, promovendo o selo Rara Cultural, vamos fazer um passeio pelos bastidores da história da televisão brasileira através das memórias de um importante e controverso personagem: José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni.

Unidos do outro mundo: dialogando com os mortos – Boni – Rara Cultural
(2015)
personagens: Boni morre e reencontra pessoas que marcaram sua vida

Boni já havia contado a trajetória profissional em uma biografia, optou por uma premissa interessante para estrear na ficção e narrar outras histórias. Aproveitando a celebração dos 80 anos em 2015, ele lançou Unidos do outro mundo: dialogando com os mortos, onde Boni narra a própria morte, o velório e então no plano superior começa a se reconectar com pessoas que conheceu, seja para agradecer, esclarecer ou apenas rever. Ele destacou o que todas estas pessoas representaram para a televisão brasileira, para ele e por que precisa reencontrá-los.

Comentários:

- Uma das boas notícias é que a história flui. Li entre a manhã e o início da tarde de um sábado de folga. Os capítulos acabam sendo temáticos, muitas vezes, reunindo personagens com algo em comum, então facilita a compreensão de que lê. Ele também cita várias pessoas que fizeram história no Rádio e nas TV brasileiras, como Tupi, Excelsior, Bandeirantes, então, são conhecidas do público e de quem estuda/estudou isso. E pode ficar tranquilo, quem você não conhecer, basta pesquisar, seja com parentes (eu mesma perguntei à minha mãe sobre algumas pessoas) ou no Google. E vai compensar, porque o elenco reunido nas memórias informais de Boni tiveram trajetórias riquíssimas.

- Para isso, estrutura o livro como se fosse o desfile de uma escola de samba. São duas agremiações, uma que reúne os personagens vivos (aparece apenas no início da narrativa e inclui a menção à Beija-Flor, escola para qual ele torce e que inclusive já o homenageou em um enredo) e a outra, que divide os reencontros nas alas de uma escola, e pontua o ritmo da narrativa. Ao chegar do “lado de lá”, ele reencontra João Araújo, que foi diretor da gravadora Som Livre e pai de Cazuza, que o guia nas reconexões – que são os reencontros que ele precisa fazer antes de seguir em frente.

- Se você não sabe quem é Boni, comece por esta pesquisa. Para um resumo bem rapidinho, ele foi uma das mentes que pensaram e elaboraram o que a gente entende hoje por referência da televisão brasileira – o padrão Globo. Antes que vocês me xinguem, este comentário é respaldado pela forma como as demais emissoras agem em relação à Globo: as estratégias delas se dividem entre o espelho ou a mira diante do que é feito pela Venus Platinada. Pelo gabinete de Boni em mais de 30 anos de emissora, passaram decisões como implantação e evolução das novelas, estruturação do jornalismo, o investimento em esporte e em musicais. Por isso, em alguns momentos, sobram críticas ao modelo atualizado que está em vigor da estrutura que ele ajudou a criar (senti isso especialmente em um dos capítulos que citam a qualidade das novelas e o excesso de transmissões de futebol, onde, segundo ele, “a falta de qualidade dos jogos” não compensa o investimento feito pela emissora). Também há críticas à situação do país, com diversas menções ao escândalo investigado pela operação Lava Jato, chamado por ele de “Petrolão”.

- Nesta jornada, ele conheceu e se relacionou com personalidades de diferentes setores e narra como imagina o reencontro com estas pessoas. Entre os nomes mais conhecidos do grande público, ele cita desde Paulo Francis, Dias Gomes, Janete Clair, Paulo Gracindo, Joãozinho Trinta, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Ayrton Senna, Chico Anysio, Chacrinha a Hilton Gomes, Roberto Marinho, Manuel de Nóbrega e, confesso que achei surpreendente, a menção ao bicheiro Castor de Andrade. Há outros profissionais que realizaram trabalhos importantes nos bastidores da televisão como os irmãos Pacote, os diretores Carlos Manga, Geraldo Casé, Paulo Ubiratan, Walter Avancini, Borjalo. Em cada reconexão, histórias sobre intimidades compartilhadas em vida, no profissional ou no pessoal. Ah, sim, há menções ao PT e à Lula, mas não há citação ao episódio da edição do debate presidencial de 1989, alvo de críticas e discussões até hoje (apesar da empresa, muitos anos depois, ter reconhecido o erro, o assunto ainda é muito polêmico).

- Para não dizer que o livro é a festa do confete e serpentina, há os momentos de “contas a serem ajustadas”, onde basicamente Boni dá a sua versão sobre os problemas no relacionamento com Tim Maia (Boni proibiu que o cantor fosse convidado para programas na Globo de tanto que ele dizia que iria e não aparecia), Chacrinha (afirmou que não se preocupou em ter sido apontado como “vilão” na peça teatral sobre o Velho Guerreiro, pela atuação na saída dele da Globo) e o mais duro, portanto, guardado para o final, reencontro com Walter Clark – outro daquelas mentes pioneiras da implantação do formato da televisão brasileira como conhecemos atualmente. Os dois trabalhavam juntos na Globo, até que Walter Clark foi demitido e Boni não saiu junto com ele. Boni explica suas atitudes no livro e afirma que não quis ler a autobiografia de Clark para não ficar aborrecido com as acusações feitas contra ele pelo ex-companheiro de trabalho.

- O livro possui uma edição caprichada, com papel especial e diferenciado (cuidado ao ler, para o livro não ficar estufado) e montagem de fotos que antecedem os personagens que serão mencionados no capítulo, além das nuvens que passeiam pelas páginas do livro (reforçando o espaço que se torna cenário da narrativa). Creio que #MadreHooligan irá gostar, primeiro, pelo bom aspecto de ter letras grandes, o que facilita a leitura. Segundo porque muitos personagens citados ela acompanhou e será bom reencontrá-los, nem que seja pelos caminhos da ficção via imaginação do autor. Enfim, é uma boa leitura, que serve como ponto de partida para que você procure outras versões da história da televisão brasileira.


Bacci!!!

Beta
Reações:

Um comentário :

  1. Muito interessante a princípio, mas eu estou tão farta de televisão brasileira (além de cinema brasileiro também), com seus filmes e novelas repetitivos e sem graça e seus programas de auditório dispensáveis completamente, que não sinto-me animada a dar uma oportunidade a este livro. Eu sinto saudade de programações educativa ou recreativa boas de fato, como havia pelo passado de televisão brasileira.

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