domingo, maio 31, 2015

Ciao!!!


Ok, confesso (para quem ainda não notou): me ganhou no inspirado título nacional, tão diferente do “Perdidas, roubadas, destruídas” original. Qualquer coisa que se refira à Mona Lisa e, por tabela, a Leonardo da Vinci, Florença e Renascimento, obtém minha atenção imediata.
O bom é que foi o ponto de partida para várias histórias muito curiosas.

Alguém viu a Mona Lisa? – Rick Gikoski – Record
(Lost, stolen, shredded – 2013)

Cadê a obra de arte que estava aqui? Não, não foi o boi que comeu. Sumiu. Algumas para sempre. O comerciante de livros raros e estudioso Rick Gikoski reuniu em “Alguém viu a Mona Lisa?” alguns casos de desaparecimentos de obras, seja de arte ou de literatura, que nos pegam pela curiosidade.

Você consegue imaginar como alguém tiraria a Mona Lisa do Louvre debaixo do nariz de todo mundo? Pois bem, conseguiram isso. E sabe como o quadro voltou ao museu? Então, só lendo para saber. Os fatos verdadeiros conseguem superar a ficção muitas vezes. (Ainda sobre o caso da Mona Lisa, lendo sobre como foi a investigação pensei comigo que não foi à toa que o Inspetor Clouseau, do Peter Sellers na série A Pantera Cor-de-rosa era francês e que Agatha Christie resolveria o crime rapidamente).

E no bloco das obras levadas e restituídas, está o mural de Urewara, uma obra de 5,5 x 1,7 m de Colin McCahon, que foi levado numa madrugada de um centro em uma área preservada na Nova Zelândia. O roubo que usou a arte para discutir perda e disputas políticas por terra, entre nativos e colonizadores. “Uma amostra do que é ter algo tomado de você contra sua vontade e ser capaz de impedir”.


A pintura de Da Vinci foi encontrada. No entanto, textos referentes às memórias de Byron ou de Larkin não se tornaram públicos, foram destruídos. Neste pacote, ainda se inclui o quadro de Winston Churchill feito por Graham Sutherland como uma homenagem que não agradou ao homenageado pelo excesso de “verdade”. Após ser exibido e entregue à família, teve o mesmo destino: destruído. No entanto, o autor discorre sobre o que se levou a esta decisão e se ela seria aceitável. Até quando o autor – ou outra pessoa designada ou não por ele – tem direito de decidir o que podemos ler de seu trabalho, mesmo após a morte?

Com Kafka, a dicussão atinge o quem tem o direito de ficar com as obras dele. Antes de morrer, deixou para o amigo e advogado Max Brod os manuscritos inéditos e pediu que fossem destruídos. Dizem que uma parte ele mesmo destruiu, mas não conseguiu concluir. O amigo não só descumpriu a ordem e levou tudo (no caso os textos que se tornaram O processo, O castelo e Amerika) para a Palestina. Aí quando ele morreu, os manuscritos tornaram-se propriedade de Esther Hoffle, secretária dele. E com a morte dela, vocês vão ter que ler para saber como queriam passá-lo adiante. A partir daí, iniciou-se uma disputa para ver quem ficava com o material, sendo que inclusive o argumento “origens judaicas” do autor foi mencionado.

Outro capitulo sobre apropriação de bens culturais judeus é o que trata da biblioteca de Guido Adler. Destacando como vários destes bens confiscados, tomados pelos nazistas, não retornaram aos herdeiros das famílias de onde foram retirados. Ele ainda aproveita e discute o roubo de arte, a quem interessa, quais os aspectos morais e legais disso. E o curioso que você vai perceber é como este “roubo” muda de figura em outros casos: quando as instituições que defendem a manutenção da cultura se apropriam de bens culturais de outros locais alegando a incapacidade dos pontos de origem em preservá-lo. Ao mesmo tempo, lembra que em tempos de guerra os políticos não protegem os patrimônios das nações onde ordenam os bombardeios (sim, há um capítulo sobre a Guerra do Golfo no Iraque que soa tremendamente atual diante de algumas ações mostradas em vídeos atuais).

E ainda há o caso de ficar imaginando como teria sido tal obra: o poema Et tu, Healy, escrito por James Joyce ainda criança em homenagem à uma figura admirada pelo pai dele. Ou os projetos arquitetônicos de Charlie Renne Mackintosh, caso ele tivesse continuado realizando tais trabalhos.

No entanto, nada supera o destino de Os Rubaiyat de Omar Khayyâm, obra-prima persa do século XII. Os poemas de quatro versos rimados à exceção do terceiro se tratavam da filosofia do poeta, que devemos comer, beber (muito) e ser feliz porque não existe nenhuma recompensa após a morte. No início do século XX, o livro ganhou uma edição com uma encadernação que hoje em dia faria chorar os defensores do modo #ostentação: a capa foi adornada com mais de mil pedras preciosas, incluindo rubis, turquesas, ametistas, topázios, olivinas, granadas e uma esmeralda, cada uma em seu próprio engaste de ouro unidas por quase 5 mil peças de couro e 9 mil metros quadrados de folhas de ouro. O trabalho realizado pelos mestres do estilo, os ingleses Francis Sangorski e George Sutcliffe recebeu o apelido de O Grande Omar e parecia fadado à tragédia desde o início. Só não sei como, diante do destino do livro, de um dos encadernadores e de uma segunda versão dele, as pessoas não entenderam que não era uma boa ideia tirar o projeto do papel. (Sim, estou doida pra contar. Não, não farei isso. Prefiro que você leia o livro e faça a mesma cara de “NÃO É POSSÍVEL!” que eu fiz)

No fim das contas, é assim que o autor resume o ponto comum destas jornadas. “A arte, como a vida, é inevitavelmente perdida. O que permanece são as forças da obliteração. (...) Temos o dom da vida, e o da arte, por um tempo e nada mais”.

Links: Goodreads autora e livro; site do autor; site da editora.

Bacci!!!!

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Um comentário :

  1. Muitíssimo interessante !!! Mas uma peninha saber que fizeram tanta barbaridade contra artes, principalmente aqueles nazistas malditos, que fizeram tanta maldade, de tantas formas, contra tantas pessoas !!! Mas eu fiquei muito incomodada com aquele comentário sobre "arte, como vida, ter prazo de validade". Seria terrível perder livros e quadros tão famosos, principalmente pela ação de mãos humanas, por destruição!!!

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