quarta-feira, abril 29, 2015

Ciao!!!



Talvez o Stephen Hawkings esteja certo e a física possa nos levar a realidades paralelas. Aposto que, em uma delas, eu me casei em uma igreja de Florença usando um vestido de noiva feito especialmente para mim pelo Roberto Cavalli. 
Por isso (e porque eu adoro uma biografia) eis este lançamento de abril da Bertrand Brasil no #AbrilImperdível do #LdM10anos.

Just me! – Roberto Cavalli – Bertrand Brasil
(Just me! – 2013 – Arnoldo Mondatore Editore S.p.A Milano )

Nesta autobiografia temos a chance de conhecer a vida, os pensamentos e o modo de trabalhar do “artista da moda” Roberto Cavalli. O menino que ficou órfão na reta final da 2ª Guerra, quando o pai foi levado pelo exército alemão e fuzilado junto com outros homens no vilarejo onde a família vivia na Toscana. A mãe, Marcella, voltou para a casa do pai, em Florença com os dois filhos, Lietta, a mais velha e o caçula, Robertino. Tanto criança quanto adolescente, Roberto tinha uma incrível dificuldade em se concentrar na escola, mas já demonstrava espírito empreendedor ao criar um clube dançante e promover shows para os jovens se divertirem.

Tentou cursos, carreiras,preocupou a mãe, até entender que precisava de um caminho de dar forma à sua criatividade: coloridas, vivas, misturadas. Aprendeu a criar de estampas e dar vida através das cores. Sem ter um diploma, se desenvolveu por conta, erros e acertos próprios. Encontrou inovações, viajou atrás de contatos, aprendeu, inovou, apanhou da vida. Conseguiu se estabelecer, mesmo que de forma tardia, próximo aos grandes, sem abrir mão dos amores eternos: a família (a mãe e a irmã; mais tarde a primeira e a segunda esposa e os cinco filhos), Florença, a vida cigana, as cores, a criação, os cavalos, o barco e velejar.

O interessante é o tom que ele deu ao livro: apesar de ter andamento cronológico, a narrativa lembra muito uma conversa entre pessoas próximas. É uma narrativa que, embora, não parece coisa pesquisada e adaptada para soar bem aos olhos do leitor. Pelo menos eu tive esta sensação. E não é por conhecer algo da vida e obra do Cavalli antes. Quem gosta, acompanha e entende moda é a minha irmã. Minha noção é a mais básica e egoísta possível: olho o vestido, se ele me agrada, elogio. Há alguns que eu adoraria usar – isso é que dá ficar assistindo aos Red Carpets de premiações. Eu sabia o básico do básico: estilista italiano.  E só (posso imaginar a cara de “affe” da minha irmã claramente agora).

Quando vi a autobiografia (e ainda ciente daquela realidade paralela que mencionei), pensei: pronto, problema resolvido. Agora vou saber mais sobre ele. Não precisou de muitos capítulos para eu entender os motivos da minha intuição. Eu não sabia que ele é nascido em Florença. Muito menos que, embora “cigano”, sua casa verdadeira é lá. E o quanto ele divulgava o nome da cidade que amava. Ah, nem que tinha realizado um desfile na Ponte Vecchio, um dos cartões-postais da cidade. Não sabia que ele trabalhava com a criação de estampas, em especial, as que se referem aos animais (porque geralmente não são os modelos que me atraem). Não sabia que ele é torcedor apaixonado da Fiorentina (com direito a levar um dos filhos ao estádio) e sonhar que a Viola conseguirá conquistar títulos (como integrante deste grupo que ama a camisa roxa com escudo da flor de lis me senti honrada). Não sabia que era apaixonado por animais, especialmente cães e cavalos, mesmo com a analogia óbvia com o sobrenome dele.

O que eu não sabia, mas imaginava, que o mundo da moda, assim como qualquer profissão, possui as pessoas legais, as nem tanto e as cretinas (há uma passagem do livro que serei OBRIGADA a mostrar para minha irmã, um episódio onde, sem meias palavras, Cavalli detona o caráter de um estilista de grife mas – respaldado na experiência citada por ele – sem ética). Muitas vezes, ser criativo e inovador não resolve. É necessário conhecer as pessoas certas ou ter respaldo de um grande nome que mostrou algo semelhante ao que você, ainda não famoso ou tão badalado quanto, tenha feito antes. E também cita como é difícil vestir as grandes estrelas de Hollywood por causa da quantidade de “intermediários” no caminho. Ah, quem gosta, vai amar um dos quatro blocos com fotografias, que são dedicados aos desenhos de figurinos criados por ele para Beyoncé, Spice Girls (quando ele atendeu a um pedido de Victoria Beckham. Só isso, ok? Desculpa mundo), Shakira (posso jurar que foi o figurino das apresentações dela na Copa de 2010, porque eles na hora me lembraram de Waka Waka), Christina Aguilera, J.Lo, Lenny Kravitz, Cindy Crawford. E sim, cita as supermodels, algumas que deram problemas, e uma pena que fala pouco de Gisele Bündchen.

Temos a narrativa de um espírito que nunca sossegou, nunca se deixou conformar por padrões, impulsivo, determinado, sempre procurando espaço para se manifestar criativamente. E de uma nostalgia do tempo que a moda era criatividade e não uma indústria onde isso vira um detalhe em um tabuleiro muito maior. Um garoto órfão, um adolescente inquieto, um jovem empreendedor, um homem que sabia o que queria, mesmo quando isso significava abandonar algo já conquistado por, simplesmente, não concordar com o novo “modus operandi”. Um admirador da beleza feminina que sempre procurou maneiras de realçá-la e enaltecê-la em um mundo onde ele sempre preferiu com várias possibilidades de cores e misturas à paleta monocromática que o remete à tristeza (aqui preciso fazer um comentário, não sou especialista, falo como leitora. Genial o trabalho de capa e contracapa, que retratam o Roberto jovem e maduro. Não sei se foi a ideia de mostrar que ele tem uma base que é, sim, preto e branco, ao mesmo tempo ausência e todas as cores misturadas. Amei que a capa tivesse uma textura diferente, suave, aveludada que estimula o tato. Pena que, só me dei conta de, sob uma luz diferente, ver dedinhos meus em toda parte dela...). Um homem que ouviu de Giorgio Armani que, mais que o sucesso e reconhecimento pelo talento, recebeu da vida algo muito melhor – filhos, amor e família – e soube encontrar e construir isso. E que tinha um motivo muito simples para parar e escrever a própria história.

E talvez em uma realidade paralela – ou nessa mesma, ultimamente, a vida anda mais surreal que qualquer ficção – algum dia eu entre em uma igreja florentina ou na minha amada igreja de Santa Terezinha usando um vestido Roberto Cavalli. Por que não?


Bacci!!!


Beta
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Um comentário :

  1. Resenha excelente !!! Eu adorei seu texto, com todos seus comentários e com todas suas palavras, sentindo vontade de ler este livro também. Principalmente por retratar uma vida não encerrada ainda, que pareceu-me ter sido genial, de um estilista italiano amante de cães e cavalos, tão interessado em cores. Eu tinha razão pelo visto em julgar que o que tenho visto pelas vitrines não tinha charme e criatividade mesmo ...

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