domingo, abril 19, 2015

Ciao!!!




Transtorno-obsessivo compulsivo. Só o nome assusta. Afinal de contas reúne três palavras, que isoladas, não soam de forma positiva. Juntas, causam verdadeiro inferno na vida de uma pessoa. Sabe lá o que é ser refém da própria mente?

Uma história de amor e TOC – Corey Ann Haydu – Galera Record
(OCD Love Story – 2013)
Personagens: Bea e Beck

Bea e Beck se conheceram em circunstância inusitada. Durante uma festa, houve um apagão e ela percebeu, pela respiração, alguém perto dela entrando em pânico. Ela se aproxima, eles acabam se beijando e se separam só sabendo o nome um do outro. Eles se reencontram em circunstância inesperada, em uma terapia de grupo realizada pela Dra. Pat. Cada qual com seus problemas se manifestando em compulsões: Beck queria malhar o tempo todo para ficar forte, muito forte e só fazia as coisas em grupo de oito. Bea achava que estava bem, apesar de ainda continuar dirigindo devagar porque temia ferir as pessoas e só se acalmava ouvindo a terapia do casal antes dela e checando se eles estavam bem. O que para alguém com passado de stalker não era um bom sinal. No entanto, ambos teriam ainda um longo caminho de escolhas para conquistar a liberdade da própria mente, equilíbrio e paz interior.

Comentários:

- Se a intenção da autora era dar uma ideia do quanto alguém com TOC sofre, conseguiu. Há vários momentos em que entendemos e sofremos junto a agonia dos personagens durante as crises onde se eles não fizessem determinada ação tinham certeza de que algo ruim aconteceria com eles ou, pior, com outras pessoas. É desesperador. Não vou conseguir descrever a sensação, por isso, nem vou tentar. Claro que muitas pessoas têm manias. Algumas têm cismas – por exemplo, eu não uso uma determinada cor no trabalho porque ela me traz más lembranças. Outros têm superstições – embora devo dizer que não passo embaixo de escada não por superstição, mas por lógica: vai que quem ou o que está no alto caia?

- “Podemos ser loucos, mas existe uma lógica por trás até mesmo das coisas mais malucas que fazemos”. Esta frase que está na contracapa é justificada ao longo da trama. A autora, primeiro, apresenta as consequências, os problemas, os sintomas e deixa as revelações para a reta final das causas. Porque, quem fez terapia sabe isso, é necessário que a pessoa admita que precisa de ajuda e identifique quais são os pontos que causam os problemas. Agora me diga: quem chega por aí, de boa, dizendo que identificou o problema e precisa de ajuda? Para chegar neste estágio é um processo que requer tempo, requer vontade de mexer com coisas que vão doer. Porque dói. Sempre dói. Em alguns casos, justamente por temer esta dor, a pessoa foge do confronto. No entanto, não dá para fugir para sempre.

- Percebemos todo este processo nas histórias narradas no livro. O momento da recusa em assumir o problema – porque ainda paira por aí o estereótipo de quem faz terapia é louco. Não é. É uma pessoa que buscou um olhar neutro e especializado para ajudar a se entender e entender o que está acontecendo com a vida. Por diferentes razões, os personagens deste livro sofrem as consequências de uma ansiedade que passa a controlar a vida deles de uma forma nada sadia. Para lidar com elas, assumem padrões de comportamento que lhes trazem conforto, mesmo que seja momentâneo. Mas isso não resolve. É necessário mexer fundo e onde dói, para quebrar o ciclo e vislumbrar uma vida livre desta prisão imposta pela mente. Ao longo do livro percebemos as escolhas que os personagens fazem, os progressos, as recaídas, as falhas. Na reta final há um momento que eu achei muito triste, mas foi necessário. Não tem um texto que passeia pela internet dizendo que milho que não passa pelo fogo não vira pipoca? Então... há horas que  a gente tem que dar uma de fênix, renascendo dos nossos próprios infernos pessoais.

- Não sei se será uma leitura confortável para você, para mim não foi. A autora tomou o cuidado de não fazer graça de nada – ainda mais porque, para quem sofre ou conhece alguém que sofre, não tem graça nenhuma. Ajuda a entender como muitas vezes nós somos nosso pior inimigo. Ser julgado não ajuda. Receber apoio sim. Mesmo que esse apoio requeira confrontar e admitir fraquezas, enfrentar a dor. Não será fácil. Mas compensa. Estar em paz consigo mesmo sempre compensa.

- Acabei não falando muito sobre o livro, desculpa. Acho melhor que vocês leiam e tirem suas conclusões sobre a jornada de Bea e como ela pode ajudar ou não – e ser ajudada ou não por – Beck.

- Links: Goodreads autora e livro; site oficial; site da editora; entrevista com a autora. Para quem quiser outras informações, pesquisei sobre TOC na internet e estes links me pareceram os mais confiáveis: UFRGS e Dráuzio Varella. Embora, claro, um especialista de confiança é sempre melhor caminho que o “dr. Site de busca” da vida...

Bacci!!!


Beta
Reações:

Um comentário :

  1. Um romance complicado entre duas pessoas que são representações vivas de condições psicológicas muito complicadas, criando obstáculos desnecessários que não trarão e nunca trariam bem algum a elas ou a qualquer pessoa de suas relações. Ser escravo de sua mente, muito mais que prisioneiro de sua mente, de tal forma é muito mais que um inferno para alguém. Seria algo como um inferno com muitos ecos.

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