sábado, abril 11, 2015

Ciao!!!






Depois de muitos séculos, finalmente consegui ler meu segundo livro da Jane Austen (sim, muita falta de vergonha na cara, assumo). Em minha defesa, devo dizer – e vocês vão concordar comigo – que tem coisa que você não apressa; aproveita quando surge o tempo certo para ler e desfrutar.

Tanto que já o tinha em mente quando pensei na votação históricos para o #LdM10anos. Imaginei que daria uma disputa intensa com a Judith McNaughty e, talvez, com a Patricia Cabot correndo por fora.


E correu assim no início. Depois, vocês viram quem levou a melhor.
Só para constar, obrigada, Luiza, pelo presente de amigo oculto! Demorou um pouco mais que previa, mas chegou ao Literatura de Mulherzinha.

Razão e Sentimento – Jane Austen – Saraiva de Bolso
(Sense and sensibility - 2011)
Personagens: Elinor e Marianne Dashwood

As mulheres do segundo casamento do sr. Dashwood tiveram muitas mudanças quando ele morreu. O herdeiro, filho do primeiro casamento, tomou posse do que lhe era de direito e elas se mudaram para um chalé em Barton Park. Novo estilo de vida, novos conhecidos e possíveis amores. Tudo é narrado sob a ótica de duas das três irmãs Dashwood, Elinor, a sensata e racional, e a passional e sentimental Marianne. Uma narrativa do cotidiano da sociedade do interior da Inglaterra no século 18, mostrando as diferentes formas das pessoas se relacionarem, seja pelo afeto, pela aparência ou pela suposição (certa ou não) de riqueza delas.

Comentários:

- O que eu mais amo nos livros da Jane Austen (ok, li Razão e Sentimento e Orgulho e Preconceito): a narrativa crítica dos personagens. Ela não perdoa ninguém, nem os protagonistas, aponta suas virtudes e seus defeitos. Isso os torna próximos de gente real, com as quais quem lê pode se identificar ou reconhecer outras pessoas. Afinal de contas, muito difícil encontrar aquelas almas boas e idealizadas beirando a perfeição que existem em outras histórias. Outra coisa que amo: a narrativa aparentemente lenta. Parece que nada está acontecendo. E de repente, tudo explode com uma intensidade que você se dá conta de tudo que foi construído até então para chegar àquele momento. A terceira coisa que amo: todo livro tem sempre um homem pelo qual a gente se apaixona. Mas isso éassunto para daqui a pouco.

- Quando a história começa, somos informados da mudança de vida para as mulheres Dashwood. Elinor, 19 anos, Marianne, 16, e a caçula, Margaret, 13, moravam com a mãe em Sussex, em Norland Park, casa do tio do sr. Dashwood. No primeiro casamento, ele teve um filho, que herdaria tudo e a quem incumbiu de prover as irmãs por parte de pai e a madrasta na falta dele. E quando isso ocorreu, não foi da forma como o pai poderia imaginar. Influenciado pela esposa (uma egoísta, vaidosa, fútil e arrogante. Mas vou parar por aqui, para deixar que vocês tenham opções de adjetivos para ela quando forem ler), Fanny, ofereceu a ela o mínimo possível – e levante as mãos para o céu e agradeça! Reduzidas à condição de visitas “com prazo de validade” na casa onde moravam e tinham tão boas lembranças, entre as circunstâncias que impediram a mudança imediata estava a crescente aproximação de Edward Ferrars, irmão da mala Fanny, e Elinor.

- No entanto, a permanência em Sussex se torna insustentável e elas se mudam para Devonshire. Elinor compreende, Marianne sofre e a mãe e a irmã estão dispostas a enfrentar o desafio. A partir do momento em que começam a travar relações com os moradores da região, a disposição de Marianne muda ao conhecer o encantador e charmoso sr. Willoughby. Ele reunia, com louvoures, todas as qualidades que ela esperava e idealizava em um homem. E seus sentimentos eram correspondidos e incentivados pelo jovem. Começou a ser dado como certo pelo grupo de conhecidos de que um compromisso seria assumido por ambos em breve. O que deixou o coronel Brandon com o coração partido. Afinal de contas, apesar da diferença de idade (Marianne ostensivamente o considerou “velho demais”, só porque ele cometeu o crime de ter mais de 30 anos), ele se encantou à primeira vista por ela.

- Por convite de uma conhecida, a sra. Jennings, as irmãs Dashwood mais velhas vão passar uma temporada em Londres. Elas conhecem mais pessoas, inclusive as encantadoras, charmosas e bajuladoras irmãs Steele (Lucy é uma vaca, que me perdoem as bovinas. É que não posso manifestar aqui o que pensei diante da total inadequação das palavras que representariam com perfeição a minha repulsa por ela). E através destes novos contatos, aquilo que Elinor e Marianne (secretamente ou não) imaginavam como certo em suas vidas se revelou incerto ou inexistente. Cada uma reage à sua maneira, desde o sofrimento sem fim de Marianne à resignação quase santificada de Elinor. Se todos percebem o que houve com uma, nem imaginam o tamanho da dor da outra. É através deste contraponto que Jane Austen nos propõe pensar sobre como reagimos ao que a vida nos apresenta. Particularmente, apesar de entender Marianne, me sinto mais próxima de Elinor, mesmo não concordando com a enorme capacidade de abnegação dela em lidar com a maldade que lhe é feita por uma garota muito vaidosa, egocêntrica e cretina (a educação de Elinor é digna de aplauso. Sério. Eu não teria 0,0000000000001 da paciência que ela teve – e pode incluir neste balaio a infindável capacidade de lidar com a irmã, que vivia numa bolha onde só importava ela e o amado, mais ninguém). Ao longo da jornada, vamos ver o resultado do sofrimento e da decepção: o quanto de amadurecimento pode trazer à Marianne e o quanto Elinor pode ver suas esperanças, mesmo as mais impossíveis, correspondidas.

- Sobre os homens que importam no livro. Houve um breve momento do livro em que fiquei com raiva de Edward, até entender que estava sendo injusta com uma pessoa que estava incapacitada de ser dono do próprio destino. Talvez ele pudesse ter lutado contra isso antes. No entanto, considerando o temperamento afável e excessivamente tímido que ele demonstrou, é compreensível perceber o quanto ele tentou articular conflitos que se tornaram insustentáveis. E o coronel Brandon. Por favor, onde tem um para eu casar? Lá no início quando li a parte onde ele foi “desconsiderado” por Marianne, deu vontade de entrar no livro ao estilo Mortal Kombat e acabar com ela. Mas a própria vida se encarregou de podar com gosto a prepotência adolescente dela. Afinal de contas, seja na vida real ou na ficção, está difícil achar homens como ele, confiáveis, comprometidos, maduros, que cuidam e respeitam. É um daqueles personagens pelo qual você se apaixona no “olá” e quer que seja feliz a todo custo no final. E me perdoem por não falar de Willoughby, porque acho melhor que vocês tirem suas conclusões sobre ele. As minhas não foram legais. E é só o que vou dizer.

- E junto com isso, temos um relato da sociedade. Como é possível encontrar de gente mesquinha, que valoriza status e aparência, e ainda as relações estabelecidas pelo interesse de um em subir socialmente e do outro em ser bajulado. E ainda como boas pessoas podem criar confusão ao passar adiante informações que pressupõem ser verdadeiras e completas. Também como as más pessoas podem aparecer disfarçadas de “fofas” e causar estragos variados, desde as pretensas “rivais” até aqueles a quem bajulava. Como pessoas vaidosas se divertem alimentando afetos apenas para brincar com sentimentos alheios. De como há pessoas que acham com direito a pressionar outras a serem como elas querem, não como poderiam ser realmente felizes. De como, ao nos basearmos em convicções pessoais intensas e pouco abertas às outras opiniões, atraímos e causamos sofrimento. Do quanto, por achar que suportamos tudo, temos nossos sentimentos ignorados, inclusive por nós mesmos. E se você está achando que isso só ocorria na Inglaterra do século 18, para um minuto e pense em situações onde tudo que descrevi caberia na sua vida. Eis porque muitas pessoas amam e vão continuar amando Jane Austen séculos depois: ela escreveu sobre gente não importa o ano. Uma obra atemporal que conversa, emociona e cativa o público. Algo que muitos tentam, mas poucos são habilidosos para conseguir.

PS1.: Você, como eu, deve ter ouvido falar do título deste livro como “Razão e Sensibilidade”. Acredito que foi uma decisão do tradutor da versão que ganhei, Ivo Barroso.

PS2.: Você já deve ter ouvido falar – ou visto – o filme inspirado no livro. Estrelado pela (diva, amada, maravilhosa) Emma Thompson, como Elinor; Kate Winslet, como Marianne; Hugh Grant como Edward e Alan Rickman como o Coronel Brandon. Pois é, eu ouvi falar no filme, mas ainda não o vi. Não sei por quê. Mas, agora que li o livro, pretendo corrigir o quanto antes. E para as que amam, também há (ÓBVIO) a minissérie da BBC.

E para que você não pense que sou uma alienada total, recomendo “O clube de leitura de Jane Austen”, onde um grupo se reúne para ler todos os livros da autora e conversar sobre eles em encontros mensais. Eles destacam as relações dos textos com as próprias vidas, com a atualidade e como se relacionam uns com os outros. Gostei muito. #ficaadica


Bacci!!!


Beta
Reações:

3 comentários :

  1. "Razão e Sentimento" foi meu terceiro romance preferido escrito por Jane Austen. Meus personagens preferidos são Coronel Brandon e Elinor Dashwood, que são maravilhosos em si mesmos, principalmente sendo interpretados por Alan Rickman e Emma Thompson. Um romance lindíssimo, com personagens riquíssimos (alguns você quer matar !). Eu incentivo você a ver esse filme primoroso ! Sem mais ! ^_^

    ResponderExcluir
  2. Que resenha deliciosa Beta, tenho Razão e Sensibilidade há pelo menos 5 anos e ainda não li. Agora, por meio dos seus olhos, fiquei com vontade de retirá-lo da estante novamente.

    ResponderExcluir
  3. Beta, gosto muito desse livro, mas no que se refere às adaptações prefiro David Morrissey como o coronel Brandon. E o que acho mais chocante é perceber que, em alguns fóruns na Internet, ainda têm fãs do livro que preferem Willoughby, mesmo com tudo o que ele fez. Só queria saber se elas gostariam de se casar com ele.

    ResponderExcluir