terça-feira, dezembro 23, 2014

Ciao!




Confesso que não esperava o que encontrei neste livro. E devo dizer que devo esta excelente experiência à narradora.

Ontem, hoje, amanhã: a minha vida – Sophia Loren – BestSeller
(Ieri, oggi, domani – 2014 – RCS Libri)

Às vésperas de completar 80 anos (em setembro), Sophia Loren usou o reencontro com um baú de lembranças para narrar a história da vida da menina que não era bonita que se tornou diva internacional do cinema, em uma trajetória que não foi fácil, mesmo em meio à glória e aos prêmios. E como a garota se tornou uma mulher em paz consigo mesma e que sabe que seus maiores valores são as realizações afetivas.

Sofia Villani Scicolone nasceu em 20 de setembro de 1934. Era filha de um relacionamento não oficializado entre Romilda Villani e Riccardo Scicolone, o pai ausente que não ligava em legitimar as filhas (além de Sofia, ele também é pai da irmã dela, Maria). A infância e o início da adolescência foram marcados pela ameaça trazida pela 2ª Guerra Mundial. Fome, pobreza, medo, riscos, a falta de segurança de saber em quem confiar, porque a guerra transforma tudo em cinzas.

Ao final deste período, enquanto a Itália se reconstruía, a sorte sorriu para Sofia Palito de uma forma que ela nunca seria capaz de prever: ao ser diferente do padrão, uma beleza foi descoberta nela. Confiando nisso, participou de concurso de belezas em Nápoles e em Roma. E este lhe abriu as portas do mundo das fotonovelas como Sofia Lazzaro (segundo quem sugeriu o sobrenome ela era de uma beleza capaz de ressuscitar os mortos) que foi o trampolim para a carreira no cinema. E novamente um batismo premonitório: Sofia se tornou Sophia e o Loren foi criado para abrir caminhos de uma estrela sem fronteira.

Ao longo da jornada, relação de amizade profunda e eterna com Vittorio de Sica e Marcello Mastroianni. Todas as chances de aprendizado com outros mestres do cinema italiano. As chances no exterior. O almoço na casa de Audrey Hepburn, a admiração de Cary Grant (que foi quem ligou para contar que ela havia vencido o Oscar), o convite de Charlie Chaplin são só alguns dos exemplos de como Sophia Loren foi muito mais longe do que poderia imaginar, graças a sua dedicação, intuição e trabalho.

Não foi fácil. Houve problemas com a Justiça e a Receita Italianas. A Justiça porque uma Dona Fulana denunciou Sophia Loren por viver uma relação com Carlo Ponti, que era casado e pai de dois filhos e queria se divorciar. Só que, na época, não era permitido o divórcio na Itália. E a Receita porque vigiava a fortuna dos dois e cobrou o que achou devido – os processos foram longos, demorados, e incluiu uma temporada breve (que pareceu infinita) na prisão para não se tornar uma exilada. No fim das contas, Carlo e Sophia e a família que formaram se acostumaram a ser cidadãos do mundo, morando em Paris, na Suíça, nos Estados Unidos e guardando a Itália nos corações.

E Sophia deixa claro em vários pontos que nenhuma premiação tem mais valor que os dois filhos. Ela relatou as dificuldades para engravidar, os traumas de gestações que não prosseguiram até finalmente conseguir seus dois maiores tesouros, Carlo “Cipi” Jr. e Edoardo. Graças a ele, atualmente, ela é a nonna orgulhosa de quatro crianças, para as quais prepara uma ceia de Natal ao longo da história. Porque no fundo, Sophia nunca deixou de ser Sofi, uma garota napolitana cheia de sonhos. Especialmente ser feliz.

O jeito como ela narrou a história parece aquelas conversas onde o narrador captura a sua atenção e não te deixa escapar até ele terminar. Não importou a fase da vida, o filme descrito, o aspecto da vida pessoal, que ela comenta até os assuntos mais doídos ou polêmicos com a delicadeza de quem viveu e tomou decisões que nem todo mundo ao redor conseguiu respeitar. É como se ela te pegasse pela mão e dissesse: “Quer saber o que eu vivi? Vem comigo que eu vou te contar”. E eu fui. Feliz. Conheci muito mais sobre o cinema italiano – alguns filmes citados aqui como Ontem, hoje e amanhã (que batiza a autobiografia) e o Matrimônio à Italiana, eu vi. Foi bom saber mais sobre pessoas que eu admiro e com quem ela conviveu. É um livro maravilhoso, digno de sua autora-protagonista.

Era uma vez uma vida amarga e estupenda que uma menina, uma mulher e uma atriz continuam a refazer.
Haverá sempre uma vez para toda menina que olhar o mundo com olhos imensos e com essa ânsia de vida.
(p.321)

- Links: Goodreads versão italiana e em inglês, autora. Um pouco mais sobre Sophia Loren, em italiano.

Bacci!!!

Beta
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Um comentário :

  1. Eu admirei Sophia Loren desde menininha, em seus filmes agitados e apaixonantes, onde ela era encantadora, julgando-a linda, a ponto de acreditar que eu era parecida com ela fisicamente em uma época de vida em que eu deveria estar louca. Eu admirei aquela pujança de vida que ela demonstrou ter sempre. Eis um livro que interessou-me bastante para comprar e saborear em uma de minhas livrarias preferidas.

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