quarta-feira, março 12, 2014

Ciao!!!


Confesso, comprei esse livro movido pela mais profunda “inveja jornalística” do autor, Gerson Camarotti. Por dois motivos: no ano passado, no conclave que elegeu o cardeal Bergoglio como Papa Francisco, ele foi o ÚNICO jornalista que mencionou o argentino como papabile. E meses depois, durante a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, ele conseguiu uma entrevista exclusiva com o Papa. Detalhe: foi a primeira de Francisco para a imprensa mundial.
Aí é compreensível a curiosidade e a “inveja jornalística” me motivarem a comprar o livro, né?

Segredos do Conclave – Gerson Camarotti – Geração Editorial

O jornalista Gerson Camarotti trabalha na cobertura de política, em Brasília, e ele explica esse interesse pelos bastidores do Vaticano dizendo que, mais que religião, se trata de articulações políticas, envolvendo grupos e até interesses diversos e, em alguns casos, antagônicos. Usando a promessa do anonimato da fonte, conseguiu relatos sobre bastidores tanto da eleição de Bento XVI quanto da eleição de Francisco. Todas as articulações que foram feitas que levaram à escolha dos dois. E isso é conseguir muito pelo simples motivo que os cardeais são proibidos de revelar o que se passa dentro do Conclave. O autor mesmo ressalta que é um dos segredos mais bem guardados do mundo, tudo aquilo que acontece além do ritual (com o qual ficamos mais familiarizados devido aos dois conclaves em menos de 10 anos e também ao trabalho do Dan Brown em Anjos & Demônios, que situou a ação do livro durante o período de um Conclave. Ele delira em um monte de coisas, mas o ritual é bem descrito e eu percebi isso durante o conclave de 2005).

- Um dos fatos narrados aqui é o papel da imprensa italiana na desconstrução dos papabiles não italianos. Afinal de contas, desde a morte do Papa João Paulo I, em setembro de 1978, a Itália não consegue eleger um papa. Em seguida, foi escolhido o cardeal polonês Karol Wojtyla, Papa João Paulo II, que esteve no comando da Igreja Católica por quase 27 anos (e que será beatificado no dia 27 de abril). Em 2005, o eleito foi o cardeal alemão Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI e em 2013, o cardeal argentino Jorge Mário Bergoglio, Papa Francisco. Então o livro narra, com detalhes, como quaisquer nomes não-italianos são implodidos por notícias de jornais italianos – basta cogitar um nome e eles perceberem que não se trata de rumor. De acordo com fontes entrevistadas por Camarotti, esse foi um dos motivos dos articuladores da candidatura de Jorge Bergoglio terem deixado o nome dele fora do radar dos papabiles antes do Conclave. Assim não daria tempo à imprensa italiana em fazer esse trabalho de auxílio ao Espírito Santo (pelo ritual, a eleição de um Papa é inspirada pelo Espírito Santo, mas, de acordo com o livro, a gente percebe que o Espírito Santo é escudo para um trabalho muito humano, muito político e nem sempre tão religioso assim). Exatamente. Havia uma campanha em torno do arcebispo de Milão, Angelo Scola, e qualquer candidato de oposição era alvo da patrulha da imprensa italiana.

(O autor não mencionou, mas a imprensa brasileira teve rompantes de Copa do Mundo no Conclave de 2013, quando o nome de Dom Odilo Scherer apareceu como papabile. Na época, pensei até em escrever um artigo acadêmico sobre isso, falando que a torcida exagerada estava comprometendo o foco da cobertura – só que, na época *e até agora* – não consegui resolver o bloqueio para escrever textos acadêmicos. E isso destacou ainda mais o trabalho de Camarotti, que obteve informações de bastidores e foi o único a dizer que Bergoglio era um nome forte no conclave).

O livro também analisa as relações tensas do Vaticano com a América Latina – em especial, na década de 80 quando a Santa Sé agiu para coibir a Teologia da Libertação. E como as consequências levaram anos para serem amenizadas – ele cita episódios como a substituição de Dom Hélder Câmara por Dom Dedé, bispo conservador em Recife. Fala ainda sobre o novo perfil dos cardeais escolhidos pelo Vaticano para postos de destaque. E ainda fala sobre as causas da redução do número de brasileiros católicos e até as “incompatibilidades” de algumas convicções pessoais destes brasileiros com a fé que professam ter. é muito bom, prendeu minha atenção e, para os estudiosos da área, uma referência a ser consultada.

E agora estou à espera de Camarotti contar como conseguiu entrevistar a fonte que disse que não daria entrevista para ninguém. Tenho minhas teorias, todas relacionadas à importância de ter bons contatos e bom trâmite em local minado (e isso descreve bem o Vaticano) e isso fica bem claro neste livro. Ele nunca conseguiria os relatos que obteve, as informações privilegiadas que teve se não possuísse um trabalho que o respaldasse e uma lista de fontes poderosa e purpurada...


Bacci!!!


Beta
Reações:

Um comentário :

  1. Muitíssimo interessante, mas versa sobre política religiosa de uma forma inovadora, portanto eu creio que não lerei este livro tão cedo, pois demandaria que eu estivesse em um momento mais sério para poder apreciá-lo devidamente por ser pouco política.

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