quarta-feira, agosto 07, 2013

Ciao!


Capa original - Goodreads

Quem acompanha o Literatura de Mulherzinha sabe que eu tenho um radar, né? Brinco que é parecido com o “sensor aranha” que avisa ao Peter Parker sobre o perigo iminente. No meu caso, o radar avisa sobre séries e sobre livros que vão me tirar do prumo, para mal e para bem.
Pois é, o radar se manifestou sobre esta biografia...

Marilyn – Norman Mailer – Editora Record
(Marilyn - 1973)

Não é uma biografia comum. Neste caso, acompanhamos o relato da vida de Norma Jean Baker, que se tornaria Marilyn Monroe, pela ótica de Norman Mailer. O livro foi lançado, originalmente,em 1973, 11 anos após a perda precoce da estrela de cinema, encontrada morta no quarto na casa onde morava, aos 36 anos.

Permitam-me uma rápida divagação: adoro filmes antigos, ainda mais se for comédia romântica. Já fiz maratonas de musicais e pra me recuperar de cirurgia dentária (que me traumatizou) recorri a uma sessão de Doris Day com Rock Hudson (e potes de sorvete napolitano – já que é para afundar na autopiedade, vou com tudo). Minhas atrizes favoritas são Audrey Hepburn (de quem tenho vários filmes), Cyd Charisse (entrava nos musicais com Fred Astaire e Gene Kelly, arrasava, roubava a cena e saía diva) e Rita Hayworth (Bonita como nunca me deixou cativada na frente da TV).

Isso me leva a por onde quero começar: eu achei o livro difícil de ler - de fato, passei mais de uma semana com ele e não por falta de tempo. Porque não conhecia muita coisa sobre Marilyn Monroe: no meu imaginário, ela está associada à beleza, à sedução, ao “ser loiro”, à confusão, às grandes divas. Mas nunca me interessei em saber mais, mesmo ela estando em um filme que eu considero perfeito: Quanto mais quente melhor (se não viu, veja. Aliás veja qualquer filme que tenha Jack Lemmon, Tony Curtis e o diretor Billy Wilder). Marilyn do Norman Mailer não é livro para iniciantes. Porque ele mistura os relatos biográficos com as opiniões dele sobre ela. E como a biografia de Marilyn é confusa, repleta de vácuos ou histórias que se contradizem pelas várias versões criadas por ela mesma (em vários pontos, ele afirma que ela era capaz de torcer a verdade sobre si mesma e sobre quem conviveu com ela de acordo com a conveniência do momento. Então nem tudo é mentira, nem tudo é verdade, mas é difícil separar o joio do trigo).

Outra coisa que me incomodou e, ainda bem, aparece mais no início do livro: a indecisão do biógrafo em decidir se conta a vida de Marilyn, se deixa ainda mais claro o que ele pensa dela (e é uma visão extremamente sexual e um tanto sexista, que me fez pensar em uma tara adolescente não resolvida) ou se solta farpas afiadas contra Richard Nixon. História americana não é o meu forte, mas acho que havia coisa demais nesta parte. Ainda bem que ele deixa o presidente do Watergate pra lá e se dedica as outras duas missões: contar a versão dele, com suposições, especulações e julgamentos, da vida de Marilyn Monroe.

Não vou me ater as opiniões de Mailer – ainda mais porque não tenho base para questioná-las. Quando ler mais sobre a atriz, talvez volte ao tema, nem que seja para contestá-las ou dar o braço a torcer e afirmar que ele estava certo (embora meu radar apite que não é bem esse caso).

Outra coisa: Marilyn teria sido mais uma daquelas estrelas fabricadas em uma Hollywood que produz filmes em caráter industrial, criando, modelando e destruindo pessoas no processo. Só que ela tinha um algo a mais que fazia com que todos os homens a quisessem na cama e as mulheres, mesmo as recatadas, queriam ser um pouco como Marilyn. Em uma pessoa com personalidade forte, isso já poderia causar confusão. Agora imagine o que este canto da sereia causa em alguém instável – porque o livro deixa claro que a instabilidade sempre a acompanhou e reforça o fator genético (tanto a mãe quanto a avó sofreram com problemas mentais e forte depressão) e o fato de ela se tornar aquilo que as pessoas ao redor queriam. Em especial, os homens com quem se relacionou. Mas como a fantasia não se sustentava por muito tempo, logo viriam as crises, as insatisfações e os rompimentos – alguns traumáticos para ela, outros mais traumáticos para os companheiros.

Eu me peguei com muita pena dela em vários momentos: por buscar nos outros aquilo que fazia falta a ela: uma segurança, um sentir-se amada e querida. E não ter encontrado uma forma de entender que a gente nunca encontra isso fora se não construí-lo internamente (posso ouvir a minha ex-terapeuta aplaudindo e falando “Ahá, então você finalmente entendeu essa parte da sessão!!!”). E ela não conseguiu preencher esse vazio, seja com os amantes, com os maridos, com as pessoas que realmente gostavam dela, com as que tentaram utilizá-la em proveito próprio, com as luzes do cinema e o amor do público. Sempre faltava algo e esta busca a deixou isolada (afinal de contas, ela era um pesadelo nos sets de filmagens e o livro relata os problemas de alguns bastidores) e acabou por consumi-la.

O livro lança de forma breve na parte final a hipótese de que ela foi assassinada pelo FBI/CIA, como parte de um complô contra os Kennedys. Aliás, para Norman Mailer, Marilyn não teve um caso com John Kennedy (associação causada a várias pessoas por causa do HappyBirthday, Mr. President), mas com o irmão dele, Robert. Esta parte é a causa da polêmica relacionada ao livro. Só que tem um detalhe que me deixou estressada com o jornalista Norman Mailer (que ganhou um Pulitzer! - não com esse livro): na faculdade, a gente aprende que jornalismo é relato de fatos, de preferência, comprovados. Da forma como ele escreveu, especialmente esta parte, são conjecturas repletas de “talvez” e “e se”, que me fez desejar por algo mais concreto. Ok, 51 anos depois, a morte dela após uma suposta overdose de barbitúricos permanece cercada de mistérios. Foi suicídio? Foi acidental? Foi forjada? Meu “eu leitora e jornalista” queria um pouco mais que “vamos imaginar que o FBI a tenha matado para incriminar os Kennedys”, só que esta parte se encerra nisso e é muito rápida.

No mais, o meu radar preveniu e eu confirmei: não é um livro que vai te deixar indiferente, pela forma como o autor escolheu escrevê-lo e muito pela personagem biografada. Marilyn era uma força da natureza, te seduz e te prende que o fascínio sobre ela vai persistir por muito tempo. Lendo este texto aposto que você pensou na cena do vestido branco esvoaçante (O pecado mora ao lado) ou mesmo na canção “Diamonds are a girl's best friends” (Os homens preferem as loiras). Serviu de inspiração para as gerações seguintes – várias quiseram ser como ela, mas apenas ela conheceu os benefícios e o peso de tamanho poder de excitação e comoção do imaginário. E ser arrastado por esta força da natureza não será tão simples: terminei o livro mentalmente exausta (e com dor no pescoço, mas isso é culpa de começar a ler de forma normal e minutos depois parecer que está fazendo contorcionismo enquanto lê). Está entre as minhas metas ler outros livros sobre Marilyn, até mesmo para poder entender melhor as afirmações do trabalho de Norman Mailer.


Bacci!!!

Beta

ps: Gostei das partes que falam sobre os bastidores dos filmes, ainda mais os que me interessam – Quanto mais quente melhor (meu xodó) e Os Desajustados, que eu ainda não vi – foi o último filme de Clark Gable (sofreu um infarto logo após a conclusão das filmagens em novembro de 1961 e morreu dias depois) e de Marilyn (que morreria em 5 de agosto de 1962) e ainda tinha no elenco Montgomery Clift (outro ator morto precocemente, aos 45 anos, em 1966 e que, não consigo explicar o por quê, mas me fascina).


ps.: Amei a foto da capa – não consegui comprovar, mas meu radar afirma que foi feita nos bastidores de Os Desajustados – uma Marilyn suave, inocente, etérea, diva e feliz. Talvez o fotógrafo tenha captado o que ela queria ser. Ou talvez seja apenas algum truque que a minha mente me pregou após ler sobre ela.
Reações:

2 comentários :

  1. Olá Beta,adorei sua resenha,menina!!!
    Eu não sou fã de biografias,mas a sua resenha me conquistou completamente,suas observações sobre o livro me deixaram curiosa e a vontade de conhecer mais do furacão Merilyn atingiu o nível máximo.

    Parabéns!!!

    bjsss

    Bianca

    http://www.apaixonadasporlivros.com.br/

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  2. Você fez uma resenha excelente !!!

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