domingo, junho 05, 2011

Capa retirada do site São Paulo Antiga

Ok, esse livro não é romance de banca. Na verdade, é um livro histórico e biográfico, cuja linha central cruzou meu caminho há 11 anos e reencontrei agora.

Pelo que entendi, o livro surgiu de um daqueles “acasos” do destino. O arquiteto e urbanista Paulo Rezzutti tem como outra atividade pesquisar a história antiga de São Paulo e uma admiração (quase obsessão) com Domitila de Castro, a Marquesa de Santos (e eu o entendo porque tenho algo semelhante com Leonardo da Vinci). Nas pesquisas, ele encontrou um acervo de 94 cartas ainda inéditas de Dom Pedro para a amante, de diferentes períodos nos sete anos que durou o relacionamento mais escandaloso do Império Brasileiro. Como ele mesmo conta, percebeu que o material merecia livro próprio – não apenas ser parte de uma obra maior sobre a Marquesa. Não é um romance, mas tem todos os bastidores de uma relação que aconteceu entre personagens de carne e osso. Tem como mérito oferecer a chance de lançar um novo olhar sobre acontecimentos da História.

Pausa para um comentário – eu adoro História. Era uma das minhas melhores notas na escola. Por sorte, tive professoras que incentivavam a pensar, não a decorar. Mas, pra desespero delas, eu tinha uma birra com a História do Brasil. Enquanto analisava aqueles feitos gloriosos da História Geral, pensava por que o Brasil teve um trajeto tão tortuoso e, aos meus olhos míopes de adolescente metida à sabe-tudo, tão equivocado. No entanto, de uns anos para cá, foram lançados diferentes livros oferecendo esse “revisite e re-veja” a História – ainda não os li, confesso, mas espero que esta visão esteja em salas de aula, transformando a história do Brasil atraente para a meninada que hoje está em sala de aula não ter a mesma visão preconceituosa que eu tive.

Voltando ao livro, o autor explica o contexto histórico da época do relacionamento entre o Imperador e a Marquesa, resume o que foi o romance dos dois e faz algo que muito me agradou: situa cada carta. Algumas não passam de bilhetes (atualmente, pelo visto, Dom Pedro seria um viciado em mandar torpedos – não vou dizer twitteiro porque os bilhetes possuem mais de 140 caracteres), outras são mais longas. A maioria possui referências a outras pessoas, nem todas conhecidas, e o autor conseguiu identificar boa parte ou, pelo menos, dar pistas de quem são. Depois de uma pesquisa intensa, encontrou diferentes pistas nas cartas para poder situá-las cronologicamente (e, por incrível que pareça, as formas como Dom Pedro a chama e assina as cartas são indicativos do período do romance). Fiquei estarrecida/encantada ao ler que o autor conseguiu identificar até mesmo a quinzena em que elas foram escritas (muitas não têm datas).

E fiquei curiosa para ler algo mais sobre a Imperatriz Leopoldina, a primeira esposa de Dom Pedro – não me faltaram momentos em que achei que ela merecia um marido melhor. Tive vontade de dar uns cascudos no Imperador (ele traiu a Imperatriz com a Marquesa e AMBAS com a IRMÃ da Marquesa – não contente, ela ainda ficou grávida dele!!!), mas as cartas o revelam mais do que qualquer livro de história: coisas corriqueiras entre namorados (presentes e mimos que o imperador enviava para ela), a paixão, o uso do poder contra quem ofendia a amante (mandou fechar camarotes e teatros onde as mulheres nobres se levantaram quando a Marquesa chegou), o controle da rotina da Marquesa (em determinado estágio do relacionamento, ele a vigiava da janela através de lunetas porque ela morava na residência ao lado da casa do Imperador) e como a tratou a partir do momento em que não queria/podia mais manter o romance.  Diz o livro que é apenas uma parte da correspondência entre eles (outras cartas já tinham sido catalogadas) porque haveria uma combinação de destruir as cartas. No entanto, a Marquesa não cumpriu totalmente o trato – por isso há mais cartas dele para ela do que o contrário.

Entre as coisas que me chamaram a atenção, estão as assinaturas do Imperador (Pedro, Imperador as passionais Demonão e Fogo Foguinho) e as formas como ele se referia à ela (meu amor, filha, querida marquesa e a Titília, da fase mais apaixonada) e as estratégias lingüísticas usadas por ele para deixar bem claras as expectativas para o próximo encontro (como na carta 24)

“Meu amor

Remeto estes cravos, posto que do Senhor dos Passos, que deveriam ser de ferro, contudo são flores e dignas de quem as vai possuir, e de seu amante Demonão, que tem o gosto de lhas oferecer. É incalculável a disposição física e moral com que estou hoje para lhe ir aos cofres.”
*Senhor dos Passos – festa que se realiza na Quaresma*

Espero que possam imaginar sozinhos o que o Imperador quis dizer com a última frase... kkk Mas, confesso, a minha carta favorita (porque causa uma interminável crise de gargalhadas sempre que lembro dela – culpem a minha imaginação muito, muito, mas muito mesmo fértil) foi a número 7:

“Meu bem e meu tudo

Dormi muito bem de noite, assim lhe acontecesse. Aí vão esses morangos para a nossa ceia,que há de ser mais substancial, mas muito menos saborosa que a de ontem, comida em camarote. Agora vou para o Macaco, e à noite lá vou ser o Seu Mico. Tenha os votos da mais cordial amizade que lhe consagra

Este luxurioso, o seu amante

Demonão”
* A Imperial Quinta do Macaco era uma das propriedades do Imperador.*

E eu contei no início que esta história cruzou o meu caminho de novo. Eu ainda estava na Faculdade e tinha que fazer uma matéria para o jornal de estudo. Resolvi escrever sobre as curiosidades do Museu Mariano Procópio, o meu ponto turístico favorito de Juiz de Fora. Durante a entrevista no local, a pessoa que me atendeu mostrou algumas cartas de Dom Pedro que constam no acervo. Uma delas era para a Marquesa de Santos = não me recordo o conteúdo - e tinha a assinatura que me chamou a atenção: “Demonão”. Nem preciso dizer que fiquei cheia de caraminholas na cabeça do que esta criatura fazia para se dar uma alcunha destas. No mínimo, pula do lustre e dá duplo twist carpado. E antes de rir, lembrem-se de que a imprensa revelou coisa muito pior sobre um certo casal da nobreza inglesa.

Quem quiser saber mais sobre o livro, recomendo São Paulo Antiga e uma entrevista com o autor, onde ele destaca a importância de saber mais que os detratores deixaram registrados para a História sobre Domitila de Castro, a Marquesa de Santos.

Bacci!!!

Beta





Reações:

5 comentários :

  1. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk


    Demonão e Fogo Foguinho... gente! Fogo Foguinho... esse imperador.....
    "aos cofres" realmente foi ótimo...

    Gosto de livros que retratam as figuras histórias sem a sua... vamos dizer assim "capa lendária"

    Este livro vai entrar na minha pilha de leitura, onde já se encontram 1808 e 1822 de Laurentino Gomes

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  2. Em parte por ser admirador confesso da imperatriz Dona Leopoldina, figura crucial na história do Brasil mas que nunca recebeu o devido crédito do marido a quem tanto amou e auxiliou, tenho grande antipatia pela marquesa de Santos (que, aliás, nunca viveu na cidade), que considero a segunda figura mais detestável da história do Brasil (a primeira é Carlos Lacerda, e o motivo é parecido - sou getulista desde criança). Fala sério: ele fez da marquesa dama de companhia da mulher, quando saía em viagens oficiais ela ia junto, obrigava dona Leopoldina a participar de solenidades onde ela era homenageada e quando esta estava à beira da morte por um aborto no qual ele teve culpa (ou sacudindo-a no alto de uma escada ou chutando a barriga dela), ela tentou entrar à força no quarto onde a imperatiz agonizava! Sem mencionar que era corrupta e fazia tráfico de influência (provavelmente foi quem instituiu o caixa-dois no Brasil)! Espero que Titila e o Demonão estejam ardendo no mármore do iferno!!! (kkkkkkkk)

    Beta, tem dois livros que posso lhe recomendar sobre Dona Leopoldina: o próprio 1822, que é bem documentado, e "Meu adorado Pedro", de Vera Moll.

    Abraços, Renan

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  3. Eu confesso: eu achava história chato quando estava no colégio.
    Achava, não acho mais.
    Quando entrei para o cursinho topei com um professor de história (um não, três) daqueles que dão show no lugar da aula.
    Um deles, o de Brasil, fazia com que eu me sentisse lendo um livro, viajando para aquela época e me divertindo com as fofocas que ele contava durante as aulas.
    Por conta dele eu comprei os mesmos livros que Carol falou alí em cima.
    E agora, porque você me deixou curiosa, vou adicionar mais um a minha listinha de leituras!!!

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  4. Ora, eu amava História Antiga mas tinha antipatia por História Brasileira porque era chaaaaata ! Minhas professoras de História eram chaaaaatas também ! Quem desfez essa birra foi Monteiro Lobato, meu autor brasileiro preferido ! D. Leopoldina sofreu um bocado graças a D. Pedro I. Mas Domitila de Castro pagou um preço muito pesado quando seu romance com ele acabou também ! Domitila e Leopoldina competiam entre si para ver quem daria mais filhos ao imperador (que era um mulherengo-mor, pai de bastardos por todo lado em Brasil e Portugal !). Ele foi mesmo culpado pela morte de sua primeira esposa graças à sua violência, tadinha ! Mas Domitila de Castro gostava mesmo de sua imperatriz, pois respeitava-a (à parte ser amante de seu esposo !), o que explicaria sua invasão de seus aposentos mortuários. Marquesa de Santos foi muito importante politicamente ao país: ela era conscienciosa e estrategista, razão pela qual seu túmulo é respeitado e visitado ainda hoje ! Assim como Leopoldina não era uma mosca morta submissa: ela soube enfrentar seu esposo bravamente muitas vezes, muito ostentosamente uma vez, sendo responsável, junto de outros, pela Declaração de Independência. Mas afinal: D. Pedro I não mereceu qualquer uma de suas mulheres !

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  5. Oi, Beta!

    Acabei de ler 1822 do Laurentino Gomes e Histórias Íntimas, da Mary del Priore, que são livros fantásticos.

    O primeiro, claro, tem como foco principal o nosso "demonão" no contexto pessoal e político, escrito de forma maravilhosa pelo brilhante Laurentino.

    O segundo trata da questão da sexualidade no Brasil desde as priscas eras até hoje e há uma parte interessante sobre os hábitos do nosso "demonão" com sua Titília e várias outras,tambpem maravilhosamente escrito pela Mary.

    Aliás, acho que podemos ser felizes com a história do Brasil por causa desses dois e outros tantos que estão transformando os livros de história em algo extremamente prazeroso de ler, analisar e discutir.

    Agora vou atrás desse livro, e cada vez mais acho que a literatura voltada para a História, que também era das minhas matérias prediletas na escola graças ao sensacional professor Jurandir, está aí para ficar e nos fazer conhecer e refletir.

    E outra coisa: não se desculpe por resenhar um livro que não seja romance. Esse é um blog democrático e que está aí prá fazer a gente aprender e discutir cada vez mais! Cabe de tudo com o maior prazer!

    Beijo!

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