domingo, abril 11, 2010

Ciao!!!


Não gostaria de chocar as minhas professoras de Português a essa altura da vida (e tantos anos depois de ter saído do colégio), mas eu odiava os livros obrigatórios para as aulas de Literatura. (O caso mais emblemático foi perguntar para uma estarrecida professora por que o Brás Cubas não foi pro inferno logo ao invés de escrever um livro chato que não terminava nunca.) Bem, o mau humor pré-vestibular teve exceções e, por incrível que pareça, duas do mesmo autor: José de Alencar. A primeira delas foi um livrinho singelo e pequeno, que compartilhava a edição com outra história da qual não consigo me lembrar (mas pesquisando é “A Viuvinha”). E por ter perdido o xerox do livro nos caminhos da vida, precisei baixá-lo para relembrá-lo o suficiente para fazer a resenha.

Cinco Minutos – José de Alencar
(publicado em 1856 em folhetins pelo Diário do Rio de Janeiro)
Personagens: o narrador sem nome e Carlota

Um atraso que mudou a vida do narrador para sempre. Ele perdeu o ônibus das seis para Andaraí e teve que esperar o carro seguinte, onde havia um lugar ao lado de uma dama misteriosa, que prendeu sua atenção. O flerte foi o início de uma paixão fulminante, repletas de encontros, desencontros, idas e vindas, cuja ameaça era o único inimigo que talvez o amor não pudesse derrotar.

Comentários:

- Todo mundo já deve ter lido um dos livros do período do romantismo brasileiro. “Água com açúcar” não dá conta para rotular. O amor é sempre idealizado e impossível. A heroína é sempre o padrão mais elevado de beleza e virtude, estando acima do bem e do mal (por exemplo, a hora que ele faz conjecturas se a dama misteriosa era bela apenas pelo perfume que ela usava). Os personagens são sempre da classe alta – como é o caso aqui - frequentam ópera, podem ir e vir para onde quiserem (o que inclui a Europa) sem se preocupar com coisas mundanas (dinheiro, trabalho, emprego).

- Temos um momento herói impiedoso, quando ele a encontra na apresentação da ópera (de onde ela cita a frase Non ti scordar di me.): ele julga que ela se divertia com a corte dele e lhe diz umas verdades (com todas as sutilezas do estilo romântico – as pessoas são educadas e amam metáforas, mesmo irritadas):
— Compreendo agora, disse eu em voz baixa e como falando a um amigo que estivesse a meu lado, compreendo porque ela me foge, por que conserva esse mistério; tudo isto não passa de uma zombaria cruel, de uma comédia, em que eu faço o papel de amante ridículo. Realmente é uma lembrança engenhosa! Lançar em um coração o germe de um amor profundo; alimentá-lo de tempos a tempos com uma palavra, excitar a imaginação pelo mistério; e depois, quando esse namorado de uma sombra, de um sonho, de uma ilusão, passear pelo salão a sua figura triste e abatida, mostrá-lo a suas amigas como uma vítima imolada aos seus caprichos e escarnecer do louco! É espirituoso! O orgulho da mais vaidosa mulher deve ficar satisfeito!
(não, não imagino um grego malcriado da Harlequin dizendo algo semelhante desta forma)

- Então a mocinha reage com igual delicadeza, diz que retribuía os sentimentos, mas que forças maiores que o amor, impedia que eles fossem felizes. Ela diz esperá-lo em Petrópolis para se despedir, o herói demora, mas vai (é incrível como ele parece estar sempre “atrasado”, talvez para aumentar a angústia).

- Ao longo de sua jornada atrás da amada, ele vai descobrindo que a paixão fulminante que o atingiu não era novidade para ela, que o amava a distância há tempos. Por causa do problema que os separava, ela havia se sacrificado e se resignado a amá-lo a distância. E ele entende que não pode abrir mão dela e tenta alcançá-la antes que embarque para a Europa – e aí vira uma corrida contra o tempo (lembrem-se: século 19, zero carros turbinados. Haja cavalos e barcas para todo lado. Avião nem pensar. Era dirigível e olhe lá).

- Sim, confesso que lembrava mais ou menos das circunstâncias do final do livro. Não lembrava que era em Florença nem que tinha Igreja de Santa Maria Novella na história. (Os motivos que me fazem sonhar em conhecer o local estão em outro livro, que li antes desse, sobre quem teria sido a Mona Lisa que o Leonardo da Vinci retratou).

- É um livro imperdível para quem gosta de histórias do gênero “só o amor salva” repleta de situações idealizadas e perfeitas – pode ser uma leitura muito diferente do que temos em mãos atualmente. Não deixa de ser interessante perceber as diferenças de estilo e de formas narrativas, o Português impecável.

- E devemos agradecer a ela, porque foi o ponto de partida do que lemos hoje em dia. Afinal de contas, os folhetins eram a “Literatura de Mulherzinha” no século 19. Está certo que, em muitos casos, alguns autores simplesmente pegaram histórias que eram publicadas em folhetins na Europa – onde o Brasil se espelhava na época – e adaptaram para o nosso país (quem já leu “A Dama das Camélias” de Alexander Dumas Filho sabe da onde José de Alencar retirou ‘Lucíola”). Mas não podemos desprezar nossos primeiros passos. Quem esquece sua História pode ser incapaz de planejar o próprio futuro....

Bacci!!!

Beta
Reações:

3 comentários :

  1. Detesto José de Alencar, traumas da escola, talvez! Sabe, através das suas palavras o livro fica mais interessante do que realmente é? Com raras exceções desconheço os autores listados, mas fiquei tão curiosa, que voltei aqui !

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  2. "Cinco Minutos" foi o primeiro romance que li e foi um dos livros que me impulsionaram a gostar de ler, e é essa edição que tem "A Viuvinha" na segunda história que eu tenho.
    Li esse livro na época do ensino médio e foi uma mudança de tema pras minhas leituras porque até o momento minhas leituras se resumiam à Arthur Conan Doyle, Agatha Christie e Anne Rice - eu era viciada - e foi com os livros do José de Alencar que comecei a me encantar pelos Romances, com autores clássicos brasileiros como J. Alencar e posterioemente com todo o tipo de romances de banca, principalmente com Romances Históricos e aqueles guerreiros maravilhosos, altos, fortes, morenos e de armadura uiuiuiui *.*

    Nessa mesma época do ensino médio peguei Brás Cubas pra ler e desisti antes do meio do livro mas voltei pra ler com uma empolgação totalmente diferente depois de ver o filme de Brá Cubas, com o Reginaldo Faria no elenco, me acabei de rir vendo esse filme!

    "Cinco Minutos" é um livro bem especial pra mim porque foi ele minha porta de entrada nesse tipo de Romance, vou reler pra postar uma resenha dele no meu blog também.

    Adorei seu blog!
    Bjossss

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    1. Eu odiava José de Alencar na escola por conta de 2 livros muito ruins que eu fui obrigada a ler ( fiquei seriamente traumatizada com Lucíola), mas procurando o que ler na net achei duas obras dele que o redimiram e me fazem perguntar até hoje porque com livros tão bons a professora me fez ler aquela porcaria, sempre que me perguntam um bom livro da nossa literatura eu recomendo esses dois: Cinco minutos, um romance dramático ( a história realmente me encantou) e A Pata da Gazela, uma comédia romântica ( eu me diverti e ri muito com essa história)

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