sábado, novembro 30, 2019


Ciao!



“Você é a única pessoa a quem eu confiaria meu precioso café, Jo tinha escrito. Sei que pode fazer isso”

Ainda bem que passei da fase de ter suspeitar que há algum motivo para escolher um ou outro livro. Agora tenho certeza de que algumas leituras – como O Café da Praia – não tinham como não aparecerem na minha vida.

O Café da Praia – Lucy Diamond – Editora Arqueiro (Romances de Hoje)
(The Beach Café - 2011)
Personagens: Evie Flynn e o Café da Praia

Evie se sentia perdida – sensação ampliada pelo sucesso das irmãs e a pressão dos pais – porque não ainda não tinha um rumo. Então uma tragédia: a tia favorita, Jo, morreu após um acidente de carro. E deixou para ela o comando do Café na Praia de Carrawen Bay, na Cornualha. Entre idas e vindas, Evie acaba descobrindo que a herança poderia ser o destino que poderia fazê-la finalmente se sentir plena na vida.

Comentários: 
“Senti como se algo dentro de mim tivesse morrido junto com a tia Jo, como se uma parte importante e imensa da minha vida tivesse sido apagada como a chama de uma vela”. 
- Uma constante dos livros da série “Romances de Hoje” da Arqueiro é mostrar que todos podemos encontrar novas formas de ressignificar a vida após um baque, uma perda doída. Neste caso, Evie perdeu a tia favorita, a única pessoa que conseguia compreender as angústias de alguém que ainda não havia se encontrado – e por tabela, parecia não atender aos preceitos de uma vida bem-sucedida.

- E como Jo explicou numa carta deixada junto com o testamento, ela reconheceu na sobrinha os mesmos sentimentos sobre o Café na Praia e viver em uma cidade na Cornualha. Por isso, nenhuma outra pessoa seria mais indicada para manter o sonho que ela realizou.

- No entanto, até se sentir capaz (ou pelo menos com um pouco mais de coragem) para assumir a herança, Evie irá hesitar. O motivo? A pressão social que a fez ter uma imagem de si própria não muito boa e o desejo de ser reconhecida e amada, que a faria capaz de abraçar as expectativas alheias sobre si mesma e não lutar para encontrar as próprias. 
“Eu era a esquisitona, o fracasso, aquela de quem todo mundo falava pelas costas, tentando não parecer alegres demais quando discutiam a minhas falhas. Ai, minha nossa, o que vai ser da nossa Evie? Eu me preocupo com ela, vocês sabem”. 
- A gente acompanha o empoderamento de Evie, no sentido de ela mesma descobrir os próprios sentimentos e como lidar com eles. Ela sempre delegou este “poder” às opiniões alheias, seja a dos pais, as formas como se sentia inferior às irmãs ou como se conformou com um projeto de vida que agradaria ao namorado certinho e organizado. E todos eles colocaram em dúvida, sem piscar, a capacidade dela de tocar o empreendimento deixado pela tia.

- A herança se torna o divisor de águas. Evie sabe que sempre se sentiu em casa no Café da Praia e sente que vendê-lo seria uma forma de desapontar a tia. No entanto, nada será fácil. Ela precisará de muita persistência e resiliência diante dos problemas que vão surgir. Muita coragem para não desanimar diante do medo e da insegurança trazida pelo fantasma “será que tomei a decisão certa?”. 
[...] e, pela primeira vez em séculos, eu tinha um sonho”. 
- É justamente isso que nos aproxima de Evie – ela é uma protagonista cheia de falhas e medos, como qualquer uma de nós diante de um momento complicado ou difícil da vida. A gente passa tanto tempo se adaptando às expectativas sobre nós – seja da família, de relacionamentos, de amigos, sociedade – que paramos de nos enxergar e nos permitir sentir de forma autônoma.

- O Café da Praia permite essa redescoberta à Evie. E não só isso. Interfere em várias outras vidas, na rotina da comunidade de Carrawen Bay, nos desafetos e afetos que ela estabelece, na sororidade com outras garotas de várias faixas etárias que também precisam de um novo rumo, um novo desafio.

- Basicamente é sobre isso: o que fazer com a vida quando a gente descobre a forma de realizar um sonho. O que nos faz dar sentido à nossa existência, disposto a nos deixar orgulhosos de si mesmos e sem aquela dependência exagerada pela aprovação dos outros. E como podemos causar impactos na vida dos outros – temos vários exemplos ruins e bons disso no livro, de pequenos, médios e grandes gestos que afundam ou erguem as pessoas ao nosso entorno.

- É fofo, é gracioso, é terno, dói, diverte, nos inspira a sonhar com os pés no chão para transformá-los em realidade. Eu estou adorando as mensagens que estes livros deixam para mim: sobre coragem, sobre insistência, sobre cair e levantar e sobre seguir em frente agindo para conseguir dias melhores. 
Em um minuto, Hugh Grant vai entrar em cena e o Richard Curtis vai entrar em cena e o Richard Curtis vai gritar ‘Corta!” e...
Antes de encerrar, precisava celebrar a referência aos filmes que eu adoro. Deu vontade de assistir de novo a Simplesmente Amor assim que li esta frase.

Ah e melhor que um livro é saber que tem mais livros da mesma autora no universo do Café na Praia. 

(ARQUEIRO, QUEREMOS! VOCÊS NÃO TERIAM CORAGEM DE NEGAR ALGO PRO BABY YODA, NÉ?)

The Beach Café

The Beach Café – O café da praia
Christmas at the Beach Café
Christmas gifts at the Beach Café
A baby at The Beach Café


Bacci!!!

Beta

quarta-feira, novembro 27, 2019

Ciao!




Aviso: nunca entre na cabeça dos outros; é feio lá dentro. [Risos.] Fique longe da cabeça deles. Vamos entrar no coração deles. 
Você já ouviu falar de Comunicação Não Violenta?
Se não sabe o que é, posso te contar que seria bem interessante que mais pessoas não só conhecessem, como também praticassem.
Posso adiantar uma coisa: envolve mudar nossa forma de pensar o mundo.

Vivendo a comunicação não violenta – Marshall Rosenberg – Sextante
(Living Nonviolent Communication: Practical Tools to Connect and Communicate Skillfully in Every Situation - 2012)

A Comunicação Não Violenta (CNV) é uma forma de expressar o que está vivo em nós. E o que tem de diferente? Ela também enxerga o que está vivo nos outros. E fala e ouve com a linguagem da compaixão, sem rótulos de julgamentos, rejeições, exigências ou condenações. 
[...] integrando o tipo de linguagem, o tipo de pensamento e as formas de comunicação que influenciam nossa capacidade de contribuir voluntariamente para o bem-estar dos outros e de nós mesmos. O processo da CNV mostra como expressar sem disfarces quem somos e o que está vivo dentro de nós – sem qualquer crítica ou análise externa que insinue que o que sentimos está errado. 
Parece simples. Só não é fácil. Porque à medida que você lê os relatos de como Marshall Rosenberg colocou em prática percebe que vai além da superfície. Para mudar como se diz, você precisa mudar a forma de elaborar e construir seu pensamento.

E isso é difícil porque, como o autor mesmo lembra, vivemos em um mundo onde não somos estimulados a estabelecer esta forma de pensar, viver e de agir para atendermos às nossas necessidades. 
Quando não somos capazes de dizer com clareza o que precisamos e só sabemos fazer análises sobre os outros que soam como críticas, acabamos em guerra – sejam elas verbais, psicológicas ou físicas. 
Acredito que esse tipo de linguagem atrapalha a resolução pacífica dos conflitos. No momento em que qualquer um dos lados se vê criticado, diagnosticado ou intelectualmente interpretado, sua energia se volta para a tentativa de se defender e de contra-atacar, não para encontrar soluções que atendam às necessidades de todos. 
Quando falo em crítica, estou me referindo a ataques, julgamentos, tentativas de culpar, diagnósticos ou qualquer coisa que analise os outros com a cabeça. Quando as respostas são dadas de forma não violenta, espera-se que não haja palavras fáceis de parecerem críticas. 
Pela falta de costume, soa impossível. Mas não é. Quando a gente dá um hard reset nesta forma padrão de pensar e que nos condiciona a agir. O autor lembra que a partir do momento que a gente passa a agir pautado pela compaixão em entender o outro, entendemos que não precisamos abrir mão das nossas necessidades. Ao ter respeito, a possibilidade de conseguir uma conciliação é muito maior.

A CNV incentiva as pessoas a usarem as “orelhas” do amor para entender as necessidades não satisfeitas das pessoas ao invés de exigências e cobranças. E que não significa ter que agradar aos outros, porque segundo ele quem opta por esta maneira de enxergar o mundo encontra e compreende as próprias emoções – a raiva, a dor, as insatisfações – e como manifestá-las, o que faz com que saiba o poder que tem sobre si mesmo. 
A escravidão emocional é a que está mais distante da CNV; é quando as pessoas pensam que têm que fazer tudo que os outros acham adequado, correto, normal. Essas pessoas passam a vida inteira pensando que têm que agradar aos outros e adivinhar o que acham adequado. É uma carga pesada. 
Os praticantes da CNV nunca querem a aprovação dos outros, nunca cedem esse poder nem querem que os outros lhes digam o que fazer. 
O autor ressalta que é a forma que ele encontrou de entrar em contato com a “Energia Divina”, uma forma de se doar em relação aos outros. Encontrar a gratidão e o caminho para melhorar a si mesmo e, por tabela, contribuir para um mundo com vidas mais enriquecidas. 
Amor não é negar a si mesmo e fazer tudo pelo outro. Em vez disso, é expressar com franqueza quais são nossos sentimentos e necessidades e receber com empatia os sentimentos e as necessidades do outro. Receber com empatia não significa que seja preciso concordar; significa apenas receber com exatidão o que é expresso pelo outro como uma dádiva de vida. Amar é exprimir com sinceridade nossas necessidades, mas isso não significa fazer exigências. 

Bacci!!!

Beta

domingo, novembro 24, 2019

Ciao!




Sabe quando alguma coisa tem que ser? 

Esta entrevista está para acontecer desde outubro. Foi quando saiu a lista dos indicados ao 61º Prêmio Jabuti e eu vi o nome da Júlia Medeiros entre os finalistas na categoria infantil com o livro “A Avó Amarela”. 

Catálogo de Bologna 2019
Prêmio FNLIJ 2019 - Autora revelação
Prêmio FNLIJ 2019 - Ilustradora revelação
Altamente Recomendável - Categoria Criança - FNLIJ 2019

Este livro não é sobre a Avó Azul

(embora ela também dormisse sem boca)

Ele também não é sobre a sua avó

(porque eu nem sei qual é a cor dela)

Ele é sobre a minha Avó Amarela

(de quem, às vezes, fico roxa de saudade)

 Aí entre idas e vindas – da vida, de compromissos, de aparelhos eletrônicos e e-mails malucos (sossega, Mercúrio retrógado) – se tornou possível nesta semana para ser publicada hoje, 24 de novembro.

E o que tem de tão especial na data? Ora, é o aniversário de 1 ano do lançamento do “A Avó Amarela”, O pela editora ÔZé. Conta com as ilustrações de Elisa Carareto e a capa de Raquel Matsushita.

Tinha que ser, né?

A Júlia é atriz e compositora do (faltam adjetivos para expressar meu amor pelo) Grupo Ponto de Partida, de Barbacena (se tiver chance, veja um espetáculo deles. Satisfação espiritual e afetiva garantida). 

Foi assim que eu soube do lançamento do livro do ano passado. E por isso me lembrei dele quando vi a lista do Jabuti.

Enfim, com muita felicidade e torcida, com vocês...


LdM: Como você recebeu a notícia da indicação ao prêmio Jabuti?

Júlia: Com alegria total! A indicação ao Jabuti é um marco para qualquer escritor brasileiro e ter acontecido no meu livro de estreia, em uma edição do prêmio que homenageia Conceição Evaristo, neste 2019, foi uma emoção muito forte. A Avó Amarela vem fazendo uma carreira bonita e sou muito grata também à FNLIJ que nos concedeu os prêmios de Escritora e Ilustradora Revelação, além do Selo Altamente Recomendável e a exposição da obra na Feira de Bolonha 2019; à Biblioteca Internacional da Juventude de Munique - Alemanha, pela seleção no Catálogo White Ravens; à Revista Crescer por nos contemplar na lista dos 30 Melhores Livros de 2018; à Bienal de Bratislava - Eslováquia, por expôr o belíssimo trabalho de ilustração da Elisa Carareto; aos blogs Estante de Letrinhas e A Cigarra e a Formiga, que o elencou entre os 10 melhores de 2018 e a tantas outras instituições e veículos que vêm recomendando o livro. Faço questão de menciona-los porque há muita gente - mulheres, na maioria - comprometida com a causa da literatura infantil brasileira. Tem sido um ano de boas novas e a melhor delas é o contato com o público e estas iniciativas.

LdM: Como foi o processo criativo que levou até o A Avó Amarela? Foi algo que demorou muito ou as ideias já rondavam a sua cabeça?

Júlia: Eu tinha decidido que queria escrever um livro. Já era compositora e contribuía também para as dramaturgias coletivas do Grupo Ponto de Partida, do qual faço parte. Depois de dias olhando para a página em branco e afastando as ideias mais familiares, combinei comigo mesma que não importava qual fosse a primeira frase, eu seria obrigada a continuar. E veio: “Na casa da minha avó - não a Azul, a avó Amarela - tinha uma mesa que ocupava toda a varanda.” Apesar de saber que o resto estaria encharcado das memórias que eu tentava evitar, entendi que ali já existia literatura e abandonei o pudor de falar de algo tão explicitamente meu. Então acho que demorou minha vida toda até aquele momento. Eu sinto, às vezes, que algumas lembranças me marcaram por terem acontecido como literatura.

LdM: Como foi a sua rotina para escrever o livro?

Júlia: Não me lembro exatamente, mas parte do livro foi escrita nas horas de folga da turnê que o Ponto de Partida fazia por cidades miudinhas do Maranhão e do Pará e que num dos dias meu pai ligou para contar que meu avô, marido da Avó Amarela, tinha morrido. Fiquei tristíssima, claro, e achei aquilo de uma coincidência absurda. Eu estava no meio do texto e me lembro até hoje daquele quarto de hotel. Foi como uma certeza de que aquela história precisava existir. Acho que não demorou para ficar pronta. Mas a revisei muitas e muitas vezes, inclusive acolhendo os pitacos de escritores amigos. O Avó é o resultado do encontro de gente muito apaixonada e empenhada no que faz. Eu, Elisa Carareto - ilustradora, Zeco - editor, Raquel Matsushita - designer e capista, levamos meses discutindo cada detalhe, refletindo sobre as possibilidades de casamento entre texto e imagem, decidindo cada vírgula, literalmente. Encontrar uma equipe tão competente e comprometida logo num primeiro trabalho, isto sim, foi uma grande sorte. Aprendi muito.

LdM: De que forma a sua vida inspirou na criação da história de A Avó Amarela?

Júlia: Totalmente. Eu convivi muito com as minhas avós e me lembro vividamente dos momentos com elas, principalmente dos almoços de domingo, quando a família toda se encontrava. Me chama muito a atenção o papel da mulher na sustentação emocional e psicológica da família, sobretudo em estruturas mais patriarcais. De um lado, elas são o nó que amarra o clã, por outro, sofrem a falta de espaço para seus sentimentos. A obrigação de estarem sempre inteiras e serem só amor, de alguma maneira as desumaniza: avó entidade. Me surpreendeu o quanto eu percebia, ainda criança, os escuros que a rondavam. E como até hoje buscamos silenciar as ranhuras... mas, claro, isto tudo está nas entrelinhas, como em todo bom almoço de domingo. Afinal de contas, é um livro infantil, cheio de passagens divertidas, doces, poéticas e também algumas assustadoras...

LdM: Desde o lançamento, como foi a recepção dos leitores e leitoras? O que você ouviu de quem já leu o livro?

Júlia: Muito legal! E o mais lindo é ver a diferença de comportamento entre adultos e crianças. Enquanto a meninada se diverte pelo estranhamento, os adultos se emocionam com a familiaridade. O “Avó” traça uma ponte entre gerações. Muita gente diz que chorou muito. Algumas, na minha frente! Há bastante identificação com as cenas, mas também tem gente que nunca teve vó e que diz que gostou de ganhar esta amarela. Já a meninada fica cheia de curiosidade e sai disparando um chumaço de perguntas. Acho que fizemos um livro de frivolidades preciosas.

Foto: Pablo Bertola
LdM: Como é estrear como escritora com um livro indicado ao Jabuti? É incentivo para seguir nesta jornada?

Júlia: Demais! Quando você vê seu nome misturado ao dos seus ídolos, vê no seu livro o selo que tantas obras que você amou na vida carregava, você se sente na obrigação de seguir. Fui formada pela literatura, literalmente. Não tenho formação acadêmica, mas tive muito contato com excelentes livros e autores na minha infância, na escola Catavento, em São João del Rei. Na adolescência, eu lia dois livros por semana no colégio estadual e depois veio o Ponto de Partida com uma bagagem riquíssima de escritores brasileiros modernos e a honra de encená-los. Em toda esta trajetória, o contato com autores foi um estímulo imenso ao meu desejo de escrever. Então, além de seguir digitando, quero estar perto dos leitores, ouvi-los, dizer aos que tenham um sonho como o meu para não desistirem.  

***

A entrega do Prêmio Jabuti será na próxima quinta-feira, dia 28, às 19h, no Auditório Ibirapuera Oscar Niemeyer, em São Paulo. Neste ano, a homenageada é a escritora Conceição Evaristo. O vencedor de cada uma das 19 categorias levará para casa R$ 5 mil e o vencedor do Livro do Ano, R$ 100 mil.

E se você se encantou pela história de “A Avó Amarela”, fique atento ao Instagram e ao Facebook da Júlia Medeiros: vai ter promoção de Natal para envio do livro com dedicatória.

Bacci!!!

Beta

Ps. A Júlia nem sonha o quanto eu quis o xale da Temporina neste dia...

sábado, novembro 23, 2019

Ciao!



– Tenha em mente uma só coisa: o destino não espera os indecisos, mas passa por cima deles. 
Gente, gente, gente!!! Quando li os primeiros capítulos de Poderoso Destino, não podia imaginar o que viria pela frente.

Agora já posso compartilhar algumas opiniões com vocês, sem spoilers, tá?

Poderoso Destino – J. Marquesi – Astral Editorial
(2019)
Personagem: Stephen Moncrief, o Conde de Hawkstone

Stephen se deparou com o pesadelo da falência, por causa da péssima gestão do pai, e da humilhação pública. Após uma atitude extrema, conseguiu se reinventar e recuperar a fortuna da família, com apoio do primo. A tal ponto de poder retomar inclusive o sonho do casamento com a noiva perfeita que foi interrompido quando caiu em desgraça. No entanto, para manter o bem-sucedido empreendimento, precisou negociar com um Barão brasileiro. E se viu diante da encrenca de definir que realmente queria para a própria vida.

Comentários:

- O livro tem como base a jornada de Stephen Moncrief, ou Hawkstone. Narra como ele descobriu que não tinha como manter a família nas despesas esperadas de um Conde e como ele fez para se reerguer. Deixa no ar que fez algo contra a própria consciência por se encontrar acuado, mas consegue com muito trabalho – pra desespero da aristocracia “rica com dinheiro antigo” – recuperar a fortuna. E com o dinheiro, o status volta. 
– Nunca mais quero sentir isso de novo! Nunca mais quero ser o homem fraco, ingênuo e crédulo. Quero que tenham orgulho de mim. – Ele fez que não com a cabeça – Quero que me respeitem. Quero ser digno de respeito, poder andar de cabeça erguida, ser diferente do meu pai... 
- Então, tudo leva a crer que vai conseguir recuperar tudo que foi tirado dele antes, inclusive a noiva, lady Gwen, que era perfeita para ser a Condessa de Hawkstone. Agora ele tinha fortuna. Ela estava viúva.  Era só esperar o período de luto e escrever novas páginas na história de amor perfeita.

- Enquanto isso, ele, Kim, o primo que indicou o investimento salvador das finanças dos Moncrief ingleses, e Braxton, o amigo visconde que se tornou cunhado, tiveram que viajar ao Brasil para garantir a renovação do contrato com o Barão de Santa Helena. A temporada no Brasil foi uma espécie de libertação de Stephen, que passou tempo demais sob a persona do “frio Conde de Hawkstone” e sufocou a própria consciência para provar que não era um fracasso.

- E aí, bem, é aí que o bicho pega. Porque ele começa a rever os sentimentos que o mantiveram firme e forte no propósito de conseguir recuperar a fortuna da família. E uma leoa de olhos dourados o ajuda Hawkstone a perder o prumo e reencontrar o Stephen.

- Por isso, quando ele volta com uma obrigação extra – ser o tutor de Helena, a filha caçula do Barão e conseguir um casamento com um nobre para a herdeira brasileira – as coisas que dava como certas já não pareciam ser tão prioritárias assim.

 - Pelos olhos de Stephan/Hawkstone vemos as relações dos demais personagens. Gostei de ver que mesmo as “vespas” como Elise, irmã dele, conseguiam felicidade em meio ao caos. Percebi o comportamento da mãe dele, que parecia ter gosto em usar a culpa e o sofrimento para controlar os filhos. 
Pense em todos os moleques travessos do mundo, agora acrescente uma inteligência anormal, coragem e teimosia: eis a minha filha! 
- Adorei Helena, a brasileira refém da sociedade marcada por regras rígidas e pela hipocrisia contra as mulheres – e em alguns casos, praticada e alimentada por outras mulheres – e Cecily, a irmã caçula de Hawkstone. Elas são totalmente destoantes das demais debutantes. As duas enxergam além da futilidade e querem ser consideradas mais que “jovens à venda no mercado de casamentos”. E são inteligentes, não consideram justo ter que se conformar neste padrão que menospreza quem realmente são.

- E gostei especialmente da coragem de Helena. Precisa ser corajosa para saber quando arriscar, como lidar com as circunstâncias adversas e até mesmo quando perceber que recuar será a melhor solução.

- A linguagem ajuda a história a fluir. Temos personagens que são frágeis por trás da fachada que ostentam publicamente, porque não se esqueceram do que passaram até chegar no estágio em que acompanhamos a trama. Isso nos garante algumas surpresas no caminho: mesmo o que você pode pensar “ah, vai acontecer isso...” ou “hum, tal personagem vai fazer isso”, pode ter certeza de que não será totalmente como você achou. Sim, há cartinhas na manga que dão um tempero especial a esta história. Fiquei curiosa sobre várias coisas e suspeito que pode ter mais por vir. Sinceramente, eu gostaria.


Bacci!!!

Beta

sexta-feira, novembro 22, 2019

Ciao!

João falou-nos apaixonadamente da vida, de sua vida, da música, de suas mãos e seus dedos, dos seus grandes amigos, de seus pais, de seus amores, de suas dores lancinantes, de seu perfeccionismo, de seus erros, de sua alegria de viver, de Deus, de tudo. Tudo parecia tão claro, tão absolutamente claro: João acabara de “escrever”, naquelas três inesquecíveis horas, a sinopse do que viria a ser esse JOÃO: De A a Z
E eu gosto de aprender. Então é a leitura perfeita. Ainda mais para hoje, 22 de novembro, dia de Santa Cecília, a padroeira dos músicos.

João de A a Z – João Carlos Martins – Sextante
(2019) 
O gráfico da minha vida tem montanhas e vales. Altas montanhas e vales profundos. Até que ponto um ser humano consegue resistir? Qual é a nossa capacidade de suportar a dor? Conhecemos realmente as nossas forças? Por que é importante termos uma missão, um propósito? Em que medida o trabalho define o homem? Como viver as paixões e ao mesmo tempo perseguir e educar a moderação? 
Gosto de relatos biográficos e a vida do maestro João Carlos Martins já foi tema de várias reportagens, desfile campeão da Vai Vai, outras biografias e de filme. Por isso, não era algo totalmente desconhecido para mim. Mas sempre é melhor ouvir da própria pessoa, sem intermediários.

Ele disse que a vida o ensinou a “aproveitar para dividir emoções, pois só sabe multiplicar aquele que aprende a dividir”.

Então, João – como gosta de ser chamado – dividiu neste livro as lembranças que gostaria de compartilhar conforme o alfabeto que, segundo ele, dá um sentido de “completude”.

A partir de palavras-chave, João Carlos revisa a própria história, contando os altos e baixos da vida e da carreira. Ele conta como surgiu o amor pela música, o interesse pelo piano, as idas e vindas como músico, os erros que cometeu, as formas como as doenças o afetaram, como insistiu, persistiu e se reinventou. 
Penso que meu amor à música, de alguma forma, funciona como uma conexão com Deus – a Ágape. Meus principais canais de expressão espiritual são o piano e a regência. Sempre penso que a arte envolve algum tipo de aproximação divina”. 
E ele me fez prestar atenção em um compositor que eu ouvi poucas vezes, ao contrário do meu amado Tchaikovsky (que atualmente ganhou a companhia de Vivaldi): Johann Sebastian Bach. João Carlos é apaixonado pelo trabalho dele e nos passa essa paixão em explicações que superam a técnica do artista.
Ele sabe as partituras de memória! Não só as de Bach, mas todas que estudou para tocar ao piano ou atualmente para conduzir orquestras como regente. 
Com Bach, a música alcançou Deus. Dele só posso dizer que é claramente um intermediário das forças espirituais. Alguém que aproxima o homem do sagrado. Suas composições nos colocam em um plano celestial”. 
Tenho dificuldade de explicar por que minha relação com Bach é tão simbiótica. São vínculos difíceis de definir, mas que atravessam séculos. O que sei, com certeza, é que fiquei fascinado desde o primeiro instante em que o ouvi, sentindo que estava apreciando uma criação divina. Comecei a tocar suas músicas ainda criança, como se já as conhecesse antes, como se minha mente as aguardasse”.    
A partir deste relato, podemos entender que as decepções atingem qualquer pessoa – não sabia que ele havia abandonado a carreira de pianista duas vezes. Além disso, ele lembra a passagem por outras profissões – quando se afastou e não queria nem saber de música – e de que forma afetou as decisões seguintes na vida dele, inclusive contribuindo para que tivesse olhar diferenciado quando se reconciliou com a verdadeira vocação. 
Eu sempre digo que o dom de Deus é 2%. Os outros 98% são disciplina e persistência. Sem os 98% nada acontece. Sem os 2%, também não. Disciplina é esforço diário e criação de rotina para se alcançarem determinados objetivos”. 
E que nunca é tarde para recomeçar: João Carlos destaca várias vezes que iniciou os estudos para se tornar maestro com mais de 60 anos. E que se pode dar um conselho é “não se traia, seja você mesmo”. 
No fundo, o que tenho com a música é uma espécie de loucura positiva, uma harmonia perfeita. desde o primeiro dia em que me sentei à frente daquele universo em preto e branco, meus dedos começaram a se mexer sobre as teclas com facilidade. Era uma criança que estava com problemas de saúde que encontrou no piano um refúgio, um amigo. Tocava como se soubesse o que estava fazendo. (...) Minha ligação com o piano é profunda e divina, associada a uma curiosidade natural que me leva a querer explorar todos os seus limites”. 
Sim, a maioria de nós não tem talento para tocar algum instrumento – alguns nem com anos de estudo. Muitos nem prestam atenção neste estilo musical. Não é estranho encontrar alguém que nunca ouviu falar em Bach ou nos outros compositores nacionais e internacionais. Há quem use a música clássica como um padrão para desmerecer outros ritmos e composições.

O fato é que a história de João, na base, fala sobre uma pessoa que tinha um talento e se esforçou para torná-lo a sua forma de vida. Entendeu que não era algo mecânico, mas que despertava paixão, vontade, amor e exigia que ele tivesse cuidado, desvelo e preciosismo. 


Vitórias e derrotas, saúde e doença, alegrias e decepções, aprendizado constante fizeram e fazem parte dos dias dele até hoje. Ele não esmoreceu, se reinventou e encontrou novos caminhos para continuar exercendo e divulgando o ofício que abraçou na vida: a música clássica, Bach, em especial. Multiplicando conhecimento, ensinamentos, paixões para que outras pessoas também pavimentassem os próprios caminhos desta forma.

Sim, esta jornada me toca e me emociona, por ser humana, por ter falhas e por ter a vontade de recomeçar todo nascer do sol. 
A música é um vento que sopra a favor da vida. Sem ela, a existência, a minha, a sua, a nossa, não teria sentido 
Talvez se você der uma chance, pode te inspirar também.


Bacci!!!

Beta