sábado, fevereiro 27, 2016

Ciao!!!



(Texto que escrevi para o Livrólogos e a Rosana liberou para publicar aqui :D)
Trumbo é uma daquelas histórias que todo mundo pode jurar que foi inventada, mas ocorreu de verdade. E fala sobre os bastidores de Hollywood e não de uma forma positiva.
Claro que viraria filme. Detalhe: indicado ao Oscar.
Mas quem foi esse homem?

Trumbo: a vida do roteirista ganhador do Oscar que derrubou a lista negra de Hollywood – Bruce Cook – Intrínseca
(Trumbo – 1977 – Grand Central Publishing)
Personagens: a jornada de Dalton Trumbo contra a “lista negra” de Hollywood

Hollywood, a terra onde tudo acontece. Onde todos os sonhos – e os pesadelos – podem se tornar realidade. Os talentosos tentam se destacar. Os sonhadores desejam vencer. Os traiçoeiros agem. Onde os fortes sobrevivem. Longe dos letreiros e do brilho semelhante a muitos outros locais, né? Pois bem, este não era o caminho que Dalton Trumbo imaginava para a própria vida. O rapaz de talento literário e comportamento passional superou a infância pobre, os fracassos do pai na cidade no interior do Colorado, o emprego que não gostou em uma padaria, os sacrifícios que fez para cuidar da mãe, das irmãs e depois da esposa e dos três filhos, e a própria inabilidade para gastar o dinheiro que ganhava para se tornar um dos roteiristas mais conceituados de cinema. Ele só sonhava em ser escritor. 

Na verdade, era o mais bem pago de Hollywood, o “pau para toda obra”, o “editor de roteiros complicados”, até que o fato de ser comunista o colocou na mira do Comitê de Atividades Antiamericanas – um grupo de direita que insuflado pela paranoia e por convicções políticas radicais começou a enxergar ameaças comunistas e o perigo de Hollywood ser dominada pelos “vermelhos”.

Com apoio e influência, começou uma verdadeira caça às bruxas que rendeu um ano de prisão aos “Dez de Hollywood”, profissionais que se recusaram a dar nomes ou colaborar com o Comitê ao serem interrogados alegando a liberdade de escolha do cidadão. E como se isso não fosse suficiente, implantaram a “lista negra”: com a conivência do sindicato dos roteiristas, dos produtores e dos donos dos estúdios, baniram qualquer pessoa contra a qual houvesse a menor insinuação de ligação com o Comunismo.

(Embora o que faz parte do nosso imaginário sobre o “comunismo” é até difícil de relacionar com o american way of life – tanto que alguns deles são chamados de “comunistas de piscinas”. Mas tenham em consideração que o mundo vivia o pós-guerra da 2ª Guerra Mundial e a polarização entre Estados Unidos x União Soviética, que renderia vários outros conflitos – só para ficar em um exemplo, X-Men: Primeira Classe aborda a Crise dos Mísseis).

Eu achei que tinha a ver com a ação do senador Joseph McCarthy, citado como “vilão” em Boa Noite, Boa Sorte (se não viram, vejam, baita filme) e que também foi responsável pela expulsão do país de personalidades como Charlie Chaplin. No entanto, o que houve com Trumbo e os demais profissionais citados foi antes e foi numa comissão da Câmara (com direito a uma “ironia do destino” no final), enquanto McCarthy agiu, anos depois, em um comitê no Senado.

Sem emprego e com a obrigação de sustentar a família, Trumbo usou de várias estratégias, inclusive trabalhar sem folga no “mercado negro”. Aceitando trabalhar sem crédito em roteiros – usando nomes de amigos para textos que ele escreveu. Pegando trabalhos e repassando a outros que, como eles, estavam proibidos de ter empregos. E foi trabalhando incessantemente, arriscando empreitadas (como se mudar com toda a família para o México), ajudando no processo do badalado A Princesa e o Plebeu (filme que revelou a diva Audrey Hepburn), entre outros. 

Ao ser o ganhador não-creditado do Oscar por Arenas Sangrentas – afinal de contas, o nome lido após o "And the Oscar goes to..." era um pseudônimo que, obviamente, não existia e atiçou todo mundo (leia-se: imprensa) na caçada da verdadeira identidade do ganhador, e ainda criando os roteiros de Spartacus e Exodus, pelos quais voltou a ser creditado, Trumbo se tornou a força que expôs e derrubou a lista negra.

A história reúne vários pontos de vista dos envolvidos, amigos, esposa, filhos, empregadores, colegas, inimizades e do próprio Dalton Trumbo. O autor conversou com todos eles para mais que fazer uma biografia do protagonista, expor um quadro do período, as perseguições, o impacto que tiveram nas pessoas que não aceitaram delatar e até nas que não resistiram à pressão e passaram informações. E o autor deixa claro que concorda e respeita as convicções do biografado, mas apresenta contrapontos à opinião dele nas vozes de alguns entrevistados.

Gostei de ler, gostei de saber como uma pessoa inteligente e determinada pode fazer a diferença, mesmo que não escolha sempre as melhores estratégias. E deixa claro que as decisões tomadas neste período custaram um preço a todos os envolvidos - e às pessoas próximas deles. Gostei de saber como encontrar soluções em períodos de crise – que o trabalho e o talento podem sim fazer a diferença, embora nem sempre é garantia de sucesso.

O livro é de 1977 e se tornou filme lançado no ano passado. Recebeu indicação ao Oscar de Melhor Ator, com Bryan Cranston, arrasando na vida pós-Breaking Bad (não perguntem, quase não vejo seriado desde que me despedi de ER – Plantão Médico). Pelo que pesquisei, merecia o prêmio. Mas se as prévias se confirmarem, há um Leonardo diCaprio no meio do caminho...

Trailer do filme:


- Links: Goodreads livro e autor; site da editora; Skoob.

Bacci!!!

Beta 
Reações:

Um comentário :

  1. Ora, censura e preconceito são um horror realmente !!! Principalmente unidos nesse contexto !!! Embora eu tenha de admitir que censura tenha seu lado bom, mas eu não encontre lado bom algum em preconceito (a menos que acerte-se em suas idéias pré-concebidas). Eu imagino que este homem teve uma vida muito intensa como homem e como roteirista, contornando toda essa armadilha com inteligência muito bem aplicada !!!

    ResponderExcluir