domingo, agosto 02, 2015

Ciao!!!



Muitas pessoas vão dizer que Umberto Eco passou um tempo no Brasil antes de escrever Número Zero. Mas na verdade desde que o mundo é mundo, certos pecados e comportamentos abusivos são repetidos por quem está certo de que conseguirá o que quer e escapará impune.
Em todas as funções existem os maus profissionais. O jornalismo, em qualquer lugar do planeta, está longe de ser uma exceção – infelizmente.

Número Zero – Umberto Eco – Record
(Numero Zero – 2015 – Bompiani/RCS Libri S.p.A)

Milão, Itália, 1992. O Comendador Vimercate era o investidor de um projeto ambicioso. Um jornal chamado Amanhã, que nunca será publicado. Para isso contratou uma equipe para montar 12 “números zeros” que passem o espírito e a motivação do empreendimento. Que não é informar, mas reunir elementos que ajudem a conformar o público em um padrão de pensamento que o interessa e usar este status como arma para conquistar prestígio e ascender socialmente.

Dos oito integrantes reunidos para fazer o “Número Zero”, apenas dois sabem deste detalhe crucial. Simei, o editor, e Colonna, narrador da trama, contratado para ser o braço direito do editor e ser o ghost writer do livro que ele pretende lançar com uma versão diferenciada da empreitada, onde ele é o editor herói  neste mundo corrompido do jornalismo. Os demais integrantes são Maia Fresia, que esperava uma chance para ser uma jornalista séria, que escreve mais que encontros amorosos de celebridades; Romano Braggadocio, repórter experiente, obsessivo e interessados em conspirações; Cambria, que garimpava notícias em hospitais e delegacias; Lucidi, que ninguém conhecia as publicações; Costanza que era chefe de composição em jornais. Para a geração pós-computador, antes desta invenção, a diagramação – ou seja, a disposição dos itens na página de jornal (texto, fotos, manchetes, publicidades etc), que hoje é feita em um programa na tela, era manual.

Ao longo do livro, Umberto Eco costura anos de estudos acadêmicos sobre o comportamento da mídia e dos veículos de comunicação com fatos que ocorreram (ou não) da história da Itália em uma trama sobre como verdades podem se transformar em mentiras. É alguém que sabe o que está falando e de quem está falando neste romance. Como que a profissão que deveria apenas privilegiar o compartilhamento de informações que interessam a todos para formar sua opinião sobre fatos se une a interesses contrários a isso. Não é à toa que o livro está sendo chamado de “manual do mau jornalismo”. Há coisas que causam horror nos leigos, pavor nos jornalistas que não aprovam este comportamento e, provavelmente, vão motivar muitas discussões em sala de aula (além de destruir aquele visão romântica de “vamos salvar o mundo, colegas jornalistas”).

Ele mostra os coniventes, os que se vendem por dinheiro, os que veem morrer a esperança de serem mais do que são obrigados a se tornarem, os que fazem qualquer negócio, os paranoicos e adeptos de teorias conspiratórias. Explica estratégias para destacar fatos irrelevantes, para criar uma sensação diante de notícias falsamente interligadas, as discussões sobre a quem, de que forma e se interessam as pautas.  
Pelos maus exemplos disponíveis mundo afora (mau jornalismo não é exclusivo da Itália nem do Brasil. Pesquisem News of the World no Google, só para saberem a que ponto os tabloides britânicos podem chegar. Ou assistam à 1ª temporada – foi a que consegui ver - de The Newsroom para ter outras notícas ), o leitor se identifica com a narrativa de Umberto Eco não importa o país onde esteja.

Os relacionamentos entre os integrantes da equipe são citados pela ótica de Colonna. Pago para observar a rotina e depois recriá-la a gosto do editor que quer posar de herói sem ser, ele revela como que um comportamento obcecado e aparentemente maluco pode acertar em algo mesmo sem saber o quê, como que um perdedor nato aos 50 anos pode reencontrar um gosto de ilusão em uma pessoa que ainda está esperando a grande chance acontecer, como alguns chefes pensam que são oniscientes e humilham quem não colabora para o plano deles e também como não é possível confiar em ninguém no ambiente de trabalho.

Infelizmente não posso dar mais detalhes para não estragar a experiência de leitura deste livro de Umberto Eco. Era um dos desejos da jornalista e da blogueira. E valeu a pena em cada uma de suas diretas, realistas, delirantes, críticas, objetivas páginas sobre jornalismo, sobre interesses, sobre política, sobre o melhor e o pior dos seres humanos.

- Links: Goodreads livro e autor; site do autor; matérias no El País e no G1; mais dela no Literatura de Mulherzinha.

Bacci!!!

Beta
Reações:

Um comentário :

  1. Jornalismo foi um caminho pelo qual eu quase trilhei, mas esse caminho perdeu brilho para Psicologia. Eu adoro escrever e escrevo muito bem (modéstia às favas !!!) e tenho horror verdadeiro às barbaridades inúmeras que leio e ouço pelo mundo afora. Eu execraria escrever para publicar o que quer que fosse que não fosse verdade (a não ser que fosse uma criação muito clara e muito óbvia de fantasia de minha autoria).

    ResponderExcluir