quinta-feira, junho 04, 2015

Ciao!!!



Como escorpiana sou naturalmente desconfiada. Então quando vejo algo em excesso fico me perguntando: “será que é tudo isso mesmo?” Aí o famoso ascendente geminiano desafia: “vamos ver se é?”. Em alguns casos, os elogios não se justificaram na minha análise. Em outras, eles são até poucos.
Este livro merece cada uma das boas coisas que você provavelmente vai ouvir sobre ele.

Beleza Perdida – Amy Harmon – Verus
(Making faces - 2013)
Personagens: Ambrose Young e Fern Taylor

Os jovens de Hannah Lake eram como vários outros pelos Estados Unidos, com suas esperanças, desejos, vaidades, aquilo que os tornava especiais ou apagados dentro do grupo. Os atletas da luta livre eram a esperança de destaque da escola no campeonato. Mas o mundo, e os sonhos, pareceram perder o sentido após o 11 de setembro, que eles viram, chocados, pela televisão. Em meio à incerteza, destinos são traçados, decisões são tomadas e as consequências são irreparáveis. Uma história sobre amor, sobre amizade, sobre família, sobre lealdade, sobre persistência, sobre perdas, sobre recomeços, sobre beleza, sobre ter ou não fé em si mesmo e em alguma força superior. Sobre vida e sobre morte.

Comentários:

- É um livro de uma beleza incrível. Ele consegue tratar de temas pesados e tristes, mas o faz de uma forma tão singela e simples, sem ser simplório, que a leitura flui e você fica com pena de ser interrompido e contando os minutos para retomar (sim, foi o que aconteceu comigo). Ele pega os estereótipos que a gente sempre associa aos “high schools” e os humaniza. O atleta imbatível duvida de si mesmo. Os amigos estão juntos em todas as aventuras, mesmo quando nem todos querem ir. O futuro se revela assustador pela indefinição se eles vão conseguir. A menina bonita precisa da afirmação constante da beleza através dos admiradores. Há casos em que a beleza não se sustenta sem conteúdo ou além do que a própria pessoa vê no espelho quando ela deixa de existir. A jovem que está sempre à margem gostaria de ser enxergada pelos demais. O menino deficiente físico se revela a alma do time.

- É desta forma que a autora nos apresenta Fern, a jovem ruiva romântica, amável e inteligente que quase ninguém nota, que se sente feia porque ouviu uma pessoa que amava dizendo que ela não era bonita como a amiga Rita, o grande amor do primo de Fern, Bailey, que sofre de síndrome de Duchenne e sabe que o tempo para ele corre diferente dos demais. Se o corpo deixasse, Bailey seria um lutador, porque o pai é o técnico da equipe de luta livre da escola, onde estão, entre outros, o bondoso Paulie, o correto e disciplinado Grant, o brincalhão (às vezes, sem limite) Beans e o determinado Jesse que no fundo sonhava em ser melhor que Ambrose. Ambrose, com seus cabelos compridos, beleza de modelo de comercial de cuecas, força, altura e elasticidade descomunais para quem pratica a modalidade, era o “Hércules”, o cara da escola. Ele era quem os rapazes invejavam ou queriam ser e com quem as garotas queriam estar. Inclusive Rita, que começou a se corresponder mandando bilhetes para ele, que não sabia, mas eram escritos por Fern.

Ele nos esculpe para Seu prazer, por uma razão que não posso ver?
Se Deus faz todos os rostos, Ele riu quando me fez?

- O mundo vai muito além das aparências, mas nem sempre temos a sensibilidade ou a maturidade para perceber isso. É necessária uma tragédia nacional, que desencadeia uma dor local, para tudo mudar. Com o 11 de setembro e a confusão sobre o próprio futuro (e o peso que pairava de ser imbatível), Ambrose decide se alistar no Exército para ir lutar no exterior. E os amigos vão juntos. Como o resumo da contracapa antecipa, apenas Ambrose, ferido, desfigurado, volta.

- A autora não corre com a trama. Ela nos apresenta os personagens, nos mostra os laços entre eles para estabelecer a importância e o impacto da morte de quatro jovens em uma guerra tão longe de casa. E da culpa que consome o único sobrevivente, cujas cicatrizes físicas não são nem sombra do estrago emocional. A autora reflete sobre perda, sobre a morte, sobre coragem, sobre como algumas coisas, por mais que a gente queira, não encontra nem resposta e, talvez, nem consolo. E a partir do momento que as coisas deixam de ser como sempre foram, mudam também os critérios de análise. O que é beleza? O que é saúde? O que é felicidade? O que é vida? O que é morte? Será que algum dia a dor vai passar, vai se transformar em algo suportável ou motivador ao invés desta força sufocante? Como é deixar de ser o belo e se tornar o monstro? Como é perceber que a jovem que pouco notou agora era a única que tinha coragem de insistir em tentar falar com ele, após um reencontro acidental? Mas será que era amor ou era pena, já que ela estava acostumada a cuidar e proteger?

Não acho que obtemos respostas para todas as perguntas nem chegamos a conhecer todos os porquês. Mas acredito que vamos olhar para trás no fim da vida, se fizermos o nosso melhor, e vamos ver que as coisas que imploramos a Deus qe tirasse de nós, as coisas pelas quais O amaldiçoamos, as coisas que nos fizeramvirar as costas para Ele ou para quaquer crença Nele, foram as maiores bênçãos, as maiores oportunidades de crescimento

- Eu me vi em Fern em vários momentos. Desde a síndrome de patinho feio até ao fato de ela ser leitora ávida de romances de banca desde os 13 anos e de isso ser tratado como apenas mais um fato a respeito dela (aliás, estou esperando um comentário sobre isso vindo da Rosana kkk), assim como gostar de escrever histórias que sempre refletem algo que ela está vivendo. De ela mesmo ouvindo que se tornou bonita não consegue acreditar porque a frase ouvida sem querer tantos anos antes condicionou a visão que ela construiu dela mesma, não importa que os cabelos cresceram, o aparelho foi tirado e o corpo se desenvolveu. Também me vi em Ambrose, que sentiu medo diante da enorme expectativa que todos tinham dele. E depois sentiu dúvidas, medos, remorsos e culpa diante do que se tornou e por ter sobrevivido. Como recuperar os laços e reconstruí-los a partir disso, como encontrar um sentido quando ele parece não existir mais. E me vi em Bailey, o garoto que celebrava cada dia e cada ano que superava as expectativas ditadas pela evolução da doença. Eu me vi nas dores que eles experimentaram, ainda mais por ter passado recentemente por uma perda doída, em que este livro ajudou a tocar (porque escorpianas teimosas deixam a dor de lado até estarem prontas para lidar com ela. Às vezes por bem, às vezes por mal e, em muitas vezes, contra a vontade)

“A vitória está na batalha”

- Como disse no início, desconfiei diante de tantos elogios. Mas eles são merecidos. A autora soube tratar do tema de uma forma capaz de capturar a atenção. Claro que não pode agradar a todos. Já tive outros com propostas parecidas que me estressaram ou angustiaram. Posso ter gostado deste talvez pela autora ter acertado nas doses de irreverência e alegria em meio à dor e tristeza. Talvez porque era uma história que eu precisava, neste momento. No fundo apenas conjecturas, porque não existe resposta certa. Mesmo assim agradeço pela paz que me trouxe, em sua sensibilidade, dor e simplicidade. E provavelmente, voltarei a vê-lo na lista dos melhores do ano em dezembro.

Links: Goodreads autor e livro; site do autor.

Bacci!!!!

Beta
Reações:

Um comentário :

  1. Peninha tantos terem morrido nesse atentado e nessa guerra, mas sua autora soube criar um revisitar interessante de bela e de fera (embora eu esteja para encontrar uma versão dessa história tão linda quanto seu original). Ela criou versões muito agradáveis e muito interessantes e muito simpáticas de sua bela e de sua fera. Eu fiquei muito bem cativada pelo seu herói ferido, com cicatrizes de corpo e de espírito, mas humano !!!

    ResponderExcluir