sexta-feira, junho 14, 2013

Ciao!!! 



Fiquei curiosa a partir do momento que li o título. Depois vi o resumo e simplesmente soube que eu tinha que ler este livro.

O que é que a baiana tem? Dorival Caymmi na era do rádio – Stella Caymmi
(2013 – Civilização Brasileira)

Stella Caymmi é neta de Dorival Caymmi e este livro é resultado da tese de doutorado dela, que estuda o cenário brasileiro na Era do Rádio, a partir de 1930. Coincide com a chegada de Dorival ao Rio de Janeiro e a explosão dele com a música O que é que a baiana tem?. E como essa música contribuiu para a formação da imagem da Bahia para o Brasil e do Brasil para o Mundo, além de formar o imaginário imediato relacionado à Carmem Miranda.

Ou seja, não é romance, não é biografia. Mas uma análise de um período que, se você tem pais ou avós ou algum parente que viveu a Era do Rádio e goste de contar causo, já ouviu algo. Eu já ouvi, mas de uma fase que não é abordada neste livro – a rivalidade ferrenha entre os fãs de Emilinha x Marlene. Sim, queridos recém-nascidos, lamento informar que, desde que o mundo é mundo, as pessoas brigam por causa de seus cantores, atores e atrizes favoritos (a melhor história que já ouvi, não sei se é lenda, é sobre a disputa das fãs de Jerry Adriani e Wanderley Cardoso para ver quem consegue colocar mais gente na missa que comemora os respectivos aniversários). Então, para quem não estudou isso ou não tem informações prévias, é um relato de porque o rádio se tornou o primeiro meio de criação da identidade nacional. Todas as dificuldades enfrentadas por quem queria entrar neste cenário, a exploração dos compositores pelas editoras musicais e pelos donos das emissoras (parece que nunca faltam pessoas/empresas dispostas a lucrar em cima do sucesso/talento/mão de obra alheia); a inveja de outros artistas (é, tem coisa que não muda mesmo).

Gostei muito de entender o óbvio (porque nunca tinha parado para racionalizar isso): que o cinema, nos primórdios no Brasil, serviu para apresentar às pessoas – em especial, quem morava longe de Rio e São Paulo – quem eram os cantores e cantoras que eles ouviam nas rádios. Aliás, a turma que estuda Marketing e Assessoria vai gostar de saber como as rádios promoviam seus ídolos na era pré-TV. Eu já havia estudado na Faculdade (e para minha dissertação também mencionei) a forma como Getúlio Vargas utilizou o poder do rádio para criar uma identidade nacional e como o Estado Novo patrulhava as criações para que nada escapasse a esse projeto.

Mas o mais interessante, disparado, é entender a complexidade em algo, aparentemente, tão simples:

O que é que a baiana tem?
O que é que a baiana tem?
Tem torso de seda tem (tem)
Tem brinco de ouro tem (tem)
Corrente de ouro tem (tem)
Tem pano da Costa tem (tem)
Tem bata rendada tem (tem)
Pulseira de ouro tem (tem)
E tem saia engomada tem (tem)
Tem sandália enfeitada tem (tem)
E tem graça como ninguém...!
O que é que a baiana tem? (bis)
Como ela requebra bem...!
O que é que a baiana tem? (bis)
Quando você se requebrar caia
por cima de mim (tris)
O que é que a baiana tem?
Mas o que é que a baiana tem?
O que é que a baiana tem?
Tem torso de seda tem (tem?)
Tem brinco de ouro tem (ah!)
Corrente de ouro tem (que bom!)
Tem pano da Costa tem (tem)
Tem bata rendada tem (e que mais?)
Pulseira de ouro tem (tem)
Tem saia engomada tem (tem)
Sandália enfeitada tem
Só vai no Bonfim quem tem...
O que é que a baiana tem? (bis)
Só vai no Bonfim quem tem...
O que é que a baiana tem? (bis)
Um rosário de ouro, uma bolota assim
Ai, quem não tem balangandãs
não vai no Bonfim
Ôi, quem não tem balangandãs
Não vai no Bonfim
Ôi, não vai no Bonfim (6 vezes)

Eu não vou antecipar aqui, mas eu posso garantir que eu fiquei encantada e fascinada com a forma como Caymmi condensou todo um universo nesta música. E o impacto imediato que teve, ao entrar como canção substituta no filme Banana da Terra, interpretada por Carmem Miranda. O registro é em preto e branco (vídeo postado por Doni Sacramento no Youtube), mas o livro conta, a partir das memórias da Caymmi, que o figurino dela era colorido e riquíssimo. Sim, esta música foi a faísca que levou Carmem Miranda a criar a personagem que fez sucesso no Brasil e nos Estados Unidos e se tornou a associação imediata à cantora. Aliás, a biografia de Carmem Miranda, escrita pelo Ruy Castro, está na minha lista de compras necessárias.

Enfim, levantei aqui apenas alguns pontos que me chamaram a atenção durante a leitura. Para quem estuda, para quem está curioso, para quem se interessa, para quem é fã, para quem não tem a menor ideia do que se trata, é um livro muito legal, resultado de muito trabalho e uma pesquisa detalhada. Fiquei com vontade de ler os outros livros dela sobre o avô: a biografia Dorival Caymmi: o mar e o tempo (2001) e Dorival Caymmi e a Bossa Nova (2008). Combinação de pesquisa, boa escrita e que resulta na valorização de uma história nossa, com suas curiosidades e imperfeições. Imagina se eu não gostaria de ler e de recomendar.

Links: vídeo de uma entrevista de Dorival na GloboNews e da música na voz de Dorival Caymmi, além de matéria sobre o lançamento do livro no Estadão.

Bacci!!!

Beta
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