sábado, outubro 30, 2010

FONTE: G1

30/10/2010 14h36 - Atualizado em 30/10/2010 17h33


CNE quer que Monteiro Lobato com trechos racistas tenha nova edição

Parecer diz que é preciso contextualizar racismo em 'Caçadas de Pedrinho'.
Conselho sugere exclusão de livros semelhantes em programas do governo.

Fábio Tito
Do G1, em Brasília

O Conselho Nacional de Educação (CNE), órgão colegiado independente ligado ao Ministério da Educação (MEC), publicou nesta semana no Diário Oficial da União a súmula de um parecer a respeito do livro "Caçadas de Pedrinho", de Monteiro Lobato, e sobre obras em geral que contenham trechos considerados racistas e que são distribuídas em escolas públicas.

O parecer aponta assuntos tratados com preconceito no livro, como os negros e as religiões africanas, quando se refere à "personagem feminina e negra Tia Anastácia e as referências aos personagens animais tais como urubu, macaco e feras africanas". Em um trecho do livro, por exemplo, a personagem Emília (do Sítio do Pica-Pau Amarelo) diz: "É guerra, e guerra das boas. Não vai escapar ninguém - nem Tia Nastácia, que tem carne negra".

A obra de Monteiro Lobato faz parte do acervo do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE) e é distribuída em escolas públicas de todo o país.

O parecer afirma que o programa segue critérios estabelecidos pela Coordenação-Geral de Material Didático do MEC para a seleção de títulos, e um dos critérios é primar pela "ausência de preconceitos, estereótipos ou doutrinações". Sendo assim, o texto sugere que livros com teor semelhante não sejam selecionados no PNBE ou, caso sejam, a Coordenação-Geral de Material Didático e a Secretaria de Educação Básica do MEC deverão exigir da editora a inserção de uma "nota explicativa" com esclarecimentos ao leitor sobre a presença de estereótipos raciais na literatura.

Educação básica deve ser conjunto orgânico e articulado, afirma CNEMEC define regras para ingresso no ensino fundamental em 2011Novas regras para credenciamento de universidades entram em vigor"Esta providência deverá ser solicitada em relação ao livro Caçadas de Pedrinho e deverá ser extensiva a todas as obras literárias que se encontrem em situação semelhante". diz o documento, aprovado por unanimidade pela Câmara de Educação Básica do CNE.

Outro trecho do parecer afirma que o governo deve implementar política pública que busque "formar professores que sejam capazes de lidar pedagogicamente e criticamente" com "obras consideradas clássicas presentes na biblioteca das escolas que apresentem estereótipos raciais".

O G1 entrou em contato com a conselheira Nilma Lino Gomes, relatora do parecer. Por e-mail, ela confirmou que o intuito não é proibir obras como "Caçadas de Pedrinho" das escolas. "O parecer segue as recomendações e critérios do próprio MEC para análise das obras literárias a serem adotadas no PNBE", disse.

Nilma destacou o critério de primar pela ausência de preconceitos, estereótipos ou doutrinações, o que pode impedir que outras obras clássicas que tenham teor racista entrem em programas como o Biblioteca na Escola. "Recomenda-se que este princípio seja realmente seguido para análise de todas as obras do PNBE, quer sejam elas clássicas ou contemporâneas."

O texto do parecer ainda não foi homologado pelo Ministério da Educação. Ele segue agora para as mãos do ministro da Educação, Fernando Haddad, que irá analisá-lo e, se necessário, consultar secretarias do MEC e especialistas para colocar ou não em prática as ações indicadas no parecer. Segundo a assessoria do ministério, não há prazo para a decisão.
Reações:

4 comentários :

  1. Lobato era racista sim. Quem leu os livros pode claramente perceber isso mas por que não aproveitar e discutir o assunto com os alunos, falar sobre contexto histórico e sobre como era o tratamento dado aos negros, mulheres, etc...
    Daqui a pouco vão proibir que A Escrava Isaura, Sinha Moça, Shakespeare...
    Lamentável.

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  2. Ciao, Sweet-Lemmon

    Pois é, concordo que tirar os trechos não é solução. Tem que usá-los em sala de aula para contextualizar a situação da época e por que não é uma visão possível atualmente. A ideia de restringir por restringir não resolve o problema... apenas mascara!

    Bacci!!!

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  3. Perdão, mas não concordo com nenhuma de vocês duas, muito menos com esta deliberação polêmica e ridícula. Estes exemplos estão fora de contexto, onde Monteiro Lobato estava fazendo graça através de Emília, seu alter-ego, que nem sempre fazia seus comentários com inteligêcia sumária. Havia muita graça de bobeira de vez em quando. Monteiro Lobato respeitava Tia Nastácia, sua personagem negra, assim como Tio Barnabé, seu personagem negro também, reconhecendo sua sabedoria de vida (ambos eram escravos libertos).

    Não há que censurar texto algum, sequer alterar obra ou proibir leitura. Estrangeiros importam e publicam Monteiro Lobato com orgulho e saudade, inclusive recentemente. Justo nós vamos caçá-lo e queimar seus livros de novo ?! Ora tenham dó !

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  4. Gente, isso é o apocalipse cultural!

    A liberdade de expressão deve ser respeitada sempre, sou totalmente contrária a esse tipo de "censura caça às bruxas".

    As pessoas tem que entender o contexto em que as obras foram escritas e como era a época em que foram publicadas e não ficar querendo apagar a história como se não tivesse acontecido.

    A sociedade só se desenvolve assim: com debate, com reflexão. Foi assim que desenvolvemos nosso senso de justiça e hoje entendemos o quão nocivo é o racismo e qualquer tipo de preconceito, seja raça, cor ou credo.

    Não adianta tentar esconder as mazelas do mundo e nem fingir que o preconceito não existe nem nunca aconteceu.

    Não à mutilação de Caçadas de Pedrinho, que por sinal é muito bom. Na minha opinião só perde pro Histórias de Tia Nastácia.

    E graças a Deus pela liberdade de expressão!!!!

    Beijos!

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